VIAGEM

1: O que voltar desse sonho tem de ruim para me oferecer.

Paloma Leite
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Paloma Leite

Há pouco tempo, voltei para casa.

Depois dos oito melhores meses da minha vida.

Ao ir, abri um blog, que prometi a mim mesma que atualizaria com fotos e lugares. Com experiências e vídeos dos meus melhores momentos. 

A parte boa de não ter cumprido essa promessa, é que vivi meus momentos com mais presença. Esqueci do blog, vivi meus dias, guardei minhas memórias. Fiz meus amigos, escolhi minha segunda família, descobri um lar a mais de 17 mil quilômetros de distância. Vi o outro lado do mundo, melhorei meus conhecimentos na língua que escolhi estudar pelo prazer e o amor.

1: O que voltar desse sonho tem de ruim para me oferecer.

Perdi a chance de subir o Monte Fuji, mas vi o templo dourado, o Kinkakuji, e o quanto ele parece pequenininho no meio da água. Vi o Fushimi Inari e poderia ter contado cada um dos toriis vermelhos que sobem pela montanha. Aliás, montanhas para todo lado em Yamanashi, onde morei. Montanhas lindas, que circulavam toda a cidade Kofu, fazendo eu me sentir em casa. 

Comi comidas maravilhosas, conheci doces, quitutes e bebidas que já estão fazendo falta. Conheci pessoas que continuaram desconhecidas, mas que me marcaram para sempre. 

Aprendi sobre o saquê. A bebida alcoólica feita de arroz, melhor que qualquer vinho que já tomei. Aprendi como fazer, como sentir e como a amar o saquê. E aprendi sobre história em uma saqueria com quase 300 anos de vida. Aprendi como cada um que faz a roda do lugar funcionar, vê a vida. Como cada um pronuncia uma palavra complicada aos meus ouvidos e como cada um se sentia perto de mim, a brasileira que veio fazer um treinamento em marketing. 

Conheci pessoas do mundo todo. Alemanha, Estados Unidos, Suécia, Índia, Taiwan, China, Indonésia, Inglaterra... 

É tanto sonho realizado em menos de um ano que um texto não descreve.

Mas a sensação de voltar, sim.

Voltar e não entender como organizar sentimentos, lembranças e medos.

É tanto medo que a gente fica meio besta, andando calado pela casa enquanto sua família tenta matar saudades de uma forma que por alguns dias, não parece natural. 

Você vai, vive a experiência de uma vida e volta, valendo menos do que quando foi.

Não para os amigos e os familiares que ficaram te esperando.

Valendo menos por não saber o que você virou e o que a vida vai fazer contigo.

Foi a primeira vez que fui para o exterior. A primeira vez que morei sozinha. A primeira vez que me perdi e tive de achar palavras para me fazer entender e entender o que tinham para me dizer. A primeira vez que desisti de um emprego, aquela coisa que todo mundo diz que é uma das coisas que você não pode perder nessa vida, e fui. Fui fazer um treinamento em marketing, mesmo formada em publicidade, quando ainda sequer dominava a língua japonesa.

Fui e voltei diferente, mas pra mesma vida de quando saí.

Ou quase.

A presidente agora é O, os preços estão mais altos, os prazos de validade das minhas coisas, velhos, meus amigos, com meses de novidades pra me contar e a única coisa que consigo fazer enquanto assimilo tudo, é sentir saudade do rámen engordurado da loja perto da estação de trem. 

E voltei sem um emprego. Aquele que no meio disso tudo, todo mundo disse que era melhor não perder.

Todas as vagas pedindo experiência, mas não a experiência que eu tive. É a experiência de alguns anos fazendo a mesma coisa pra ganhar o mesmo salário que eu ganhava quando ainda estava ganhando experiência, na faculdade. Pedindo experiência em novidades (para mim), que não aprendi na faculdade, não aprendi no trabalho e por falta de vergonha na cara, não aprendi por mim mesma. 

Hora de dar uma renovada nas experiências! 

Faço cursos, leio blogs, textos e e-mails me ensinando sobre tudo que quero aprender. Peço conselhos, peço ajuda e só quem uma vez me ensinou tudo e deu de cara com um beco sem saída do desemprego, está comigo pra me ajudar. 

Outros, são curtos e até relativamente polidos para perguntar: 

Tem experiência com isso?

Não...

Tem noção do que é [inserir nomenclatura confusa que substituem duas palavras simples, que eu, "iniciante", não consigo entender]?

Não... (Não com esse nome). 

Bom, é uma maravilha que você tenha realizado seu sonho! Mas essa experiência infelizmente não se encaixa em nossas necessidades. Até mais! (O até mais é de minha autoria, porque acredito que o dia corrido tenha feito essa pessoa esquecer de me responder). 

Mas... E esse curso recente que eu fiz? E minha disponibilidade para aprender mesmo que isso exija um recomeço de uma carreira? E essa vaga que não exige experiência e sim vontade de aprender? 

Aprendi realizando um grande sonho, que sonhos mudam a gente. Principalmente quando são realizados. E pessoas mudadas às vezes não estão preparadas para voltar para o mundo em que eram outras pessoas. No meio da dificuldade de lidar com olhares de estranhamento enquanto você mostra uma uma nova confiança, novos conhecimentos... 

Aprendi que é extremamente difícil lidar com a realidade de que seu sonho não faz diferença nenhuma para as outras pessoas. Principalmente para seu currículo. 

Como será a melhor forma de lidar com a rejeição do mercado de trabalho, mesmo quando você se prepara, depois de realizar um grande sonho que não era apenas um sonho, mas a oferta de uma oportunidade de melhorar seu currículo? 

Isso ainda to aprendendo...