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Em ano de Olimpíada, que tal parar com galeria de musas?

Ou objetificação da mulher no esporte? Ou mais inception ainda: objetificação da esposa do jogador no esporte? Para quem não sabe do que eu estou falando, falo de matérias como essa:

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Para justificar o título clickbait (tudo que chama atenção do internauta, algo como uma isca de cliques, ou seja: o "boa forma" de uma mulher), a matéria faz parecer que há uma notícia: as supostas brincadeiras na web. E aí mostra duas. Dois memes. Parem as máquinas! Mesmo se fossem milhares, sério que a boa forma da esposa do cara que ganhou o prêmio principal é a coisa mais importante a ser falada? Ou a mais interessante? Qual o interesse público nisso? 

E não para por aí, as "galerias de musas" já são tradição na imprensa esportiva brasileira. Durante a Copa do Mundo masculina de futebol, a galera deu um jeito: rolaram galerias de musas torcedoras. 

Fora isso, o tratamento que é dado às atletas mulheres é muito diferente dos homens. As perguntas são superficiais, machistas, sobre aspectos estéticos do corpo delas ou sobre sua vida pessoal. O que isso faz? Além de criar uma pressão enorme sobre essas meninas (como se elas já não sofressem pressão suficiente), ainda muda a conversa. Não se trata mais do desempenho delas nas quadras, nas pistas, nas piscinas. É tudo sobre o corpo delas. Quão injusto é isso? 

E antes que falem que elas ganham com a beleza delas, será que deveria ser assim? Atletas homens ganham contratos publicitários independentemente do quão atraentes eles são. Na verdade, costuma ir pela qualidade deles no esporte. O tenista Djokovic, por exemplo, não é conhecido como o mais bonito de todos - mas foi o que mais ganhou com contratos publicitários. Serena Williams, mulher, negra e musculosa (mas a primeira no ranking), ganhou menos do que outras tenistas - loiras, magrinhas e padrão de beleza. 

Sem contar os comentários que elas têm de aguentar. Para as "loirinhas bonitas", perguntas sobre "quem elas gostariam de namorar". Para a Serena Williams, comentários nada menos do que extremamente maldosos sobre o corpo dela, como esse por exemplo:

"Geralmente, eu sou super a favor de estrelas do esporte mais fortinhas... mas tênis exige uma mobilidade que a Serena não pode esperar atingir enquanto estiver com esses peitos que votam em um estado diferente dos Estados Unidos que o resto do corpo dela"

Isso é absolutamente inaceitável. E foi falado por um colunista do Telegraph. É toda uma cultura de machismo no esporte que gera esse tipo de coisa, passa para os homens que eles têm sim o direito de falar sobre algo que não tem nada a ver com eles. Influencia até no assédio que essas atletas sofrem no Facebook delas, no Instagram delas. 

First training 💦💪🏻🇨🇦

A photo posted by Ꮖηgrιd Ꮎlινeιrα - Ofιcιαl (@ingrid.oliveira96) on

Essa é a Ingrid Oliveira, de 19 anos, atleta do salto ornamental ansiosa para os jogos panamericanos. Na foto, ela apontando para a piscina e o logo dos panamericanos (vestida com seu uniforme de trabalho). Nos comentários coisas como "ah, se o meu dinheiro desse". Daí para baixo. Olha o desabafo da moça, dias antes de começar uma das competições mais importantes da carreira dela:

"Fiquei horrorizada. Do nada, começou a aparecer um monte de homens que nunca vi na vida comentando absurdos na minha foto. Fui apagando um por um, não quero isso de jeito nenhum"

Mulher nenhuma merece passar por isso. Independe da foto que posta nas redes sociais, da roupa que usa, da cor do batom, do que quer que seja.

Nos Estados Unidos está rolando uma campanha muito legal. A "Cover the Athlete" - algo como "Cubra o Atleta". É bem simples, em vez de fazer perguntas sobre o corpo, a dieta, a vida amorosa das atletas, faça as mesmas perguntas que você faz para os atletas homens. Pare com essas galerias de musas, dê valor para as boas atletas, independentemente da "beleza" delas. Dê valor para os esportes independentemente do uniforme ser "sexy" ou não. 

#machismo #galeriademusas #esporte #feminismo #olimpíadas #jornalismo

Faltou feminismo no Globo de Ouro 2016

Talvez fosse a empolgação ainda de 2015, quando tivemos um dos melhores Globos de Ouro e, coincidência ou não, um dos mais feministas, também.

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Amy Poehler e Tina Fey foram críticas, engraçadas e ainda carismáticas, mesmo depois das patadas que deram na indústria inteira. Teve referência ao marido da Amal Clooney (aquele ator que é casado com uma advogada de direitos humanos absolutamente impressionante), teve críticas pesadas a Bill Cosby e teve também comentários maravilhosos como esse:

                            ["Só como base de comparação, levou três horas para eu me preparar para o meu papel de 'mulher humana'"]

E em vez de Tina e Amy, tivemos Ricky Gervais com piadas transfóbicas e críticas a desigualdade de salários válidas, mas mal feitas. Em vez de se manter nas piadas boas - como a de que ele estaria ganhando o mesmo que Tina&Amy, ele preferiu criticar a postura de Jennifer Lawrence, que publicou um artigo sobre as diferenças salariais. Brincando, colocou a atriz como uma menina mimada, que estaria reclamando de ganhar 52 milhões de dólares. Não, amigo, ela está reclamando de ganhar metade do que Bradley Cooper ganha. Seja essa metade 52 milhões de dólares ou 52 reais. No próprio artigo dela ela colocou uma ressalva dizendo que sabia o quão privilegiada ela é. 

2016 tinha altas expectativas não só por causa da cerimônia do ano passado e do quanto a luta das mulheres cresceu em 2015. 2016 também tinha um forte concorrente ao GG de melhor filme: Carol, um longa sobre o complicado relacionamento entre duas mulheres na década de 1950. Mas o filme, um dos que concorria em mais categorias, não levou nada. 

Vamos dar uma olhada nos grandes vencedores da noite de ontem?

Melhor filme: em uma categoria com dois filmes que protagonizavam fortes mulheres, e um terceiro que foi considerado feminista (Mad Max: Fury Road), venceu a história do homem sobrevivente. Um filme protagonizado por homens (sério, nenhuma personagem mulher de relevância), escrito, dirigido e produzido por homens (só duas mulheres na equipe de 18 pessoas).

Melhor filme de comédia: são cinco indicados. Desses, três têm protagonistas mulheres. O vencedor? O filme sobre o homem que fica sozinho em Marte.

Melhor diretor: cinco indicados. Cinco homens. Cinco brancos.

Melhor roteiro: ganhou a história sobre o homem branco que construiu um império (Steve Jobs). O filme sobre a mulher que passou anos em um cativeiro junto com o seu filho deu o Globo de Ouro de melhor atriz protagonista para Brie Larson e esteve entre os indicados para melhor filme drama, mas não levou melhor roteiro.

Não é meu lugar de fala, mas não dá para não reparar a falta de diversidade entre os indicados e especialmente entre os vencedores. Não é porque você dá o prêmio de honra para um negro que iguala a balança. 

Aliás, falando sobre o Cecil B. DeMille (o tal do prêmio), só uma mulher (Jodie Foster em 2013) ganhou nos últimos dez anos. Antes dela, a mais recente foi Barbra Streisand em 2000. Foram só 13 mulheres entre os 64 vencedores. Apenas que: Meryl Streep nunca ganhou. Preciso dizer mais?

Claro que só porque um filme tem um protagonista homem, não quer dizer que ele não seja o melhor filme do ano. Ou só porque um ator é homem, não quer dizer que ele não mereça o prêmio de 'conquistas na carreira'. Mas quando isso acontece sistematicamente, ano após ano e em diversas categorias, tem que ser questionado e problematizado, sim.

Faltou feminismo no Globo de Ouro 2016

                        Sdds, Tina&Amy

*Em tempo, parece até que a Sheila Vieira fez isso para mim:

#feminismo #globodeouro #tinafey #amypoehler #machismo #igualdadesalarial

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escrita por
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aprevidelli
Jornalista