HUMOR

Cemitério do Brás

Beatriz Langella
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Beatriz Langella

    O cemitério do Brás é um lugar tenebrosamente encantador. Está acabado. Os túmulos das famílias estão, na maior parte, assustadores- com partes faltando ou marcas de ferrugem, mofo ou sujeira. Mas é incrível. Ali há histórias acabadas de gente que chegou aqui pra fazer uma família. Fez um bairro também. Quem veio não se importou muito em ficar rico, se importou mais em ter filhos e ter uma família grande. Em saber das fofocas dos vizinhos, ir na festa da igreja, beber uma cerveja com os amigos, chamar a rua inteira pra comer um bacalhoada em casa. Logo ali no cemitério do Brás está o jazigo da minha família porque fazemos parte desse mar de gente que aqui se aninhou. Ali estão todos eles. Você pode ver os restos mortais de cada um deles quando algum parente morre e, durante o enterro, tiram todos aqueles sacos azuis. Apenas sobras do que foram essas pessoas que construíram a minha história, que me fizeram nascer aqui. Não se engane. É uma cena terrível. O jazigo parece um péssimo lugar pra passar o resto da eternidade. A calçada está toda quebrada e não há quase nenhum túmulo bonito porque passou a época em que as pessoas se preocupavam em manter os jazigos devidamente apresentáveis. O cemitério do Brás é um lugar muito complexo. Na década de 70 era normal que as pessoas fossem visitar seus antepassados e aproveitassem pra fazer um piquenique e passar o domingo. Se fizer isso hoje talvez você não se divirta tanto quanto o esperado mas, uma vez pisando lá, você se torna um ponto num mar de histórias que circundam o cemitério do Brás.