Estranhices de Beatriz
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Todo mundo tem uma história para contar
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Cemitério do Brás

    O cemitério do Brás é um lugar tenebrosamente encantador. Está acabado. Os túmulos das famílias estão, na maior parte, assustadores- com partes faltando ou marcas de ferrugem, mofo ou sujeira. Mas é incrível. Ali há histórias acabadas de gente que chegou aqui pra fazer uma família. Fez um bairro também. Quem veio não se importou muito em ficar rico, se importou mais em ter filhos e ter uma família grande. Em saber das fofocas dos vizinhos, ir na festa da igreja, beber uma cerveja com os amigos, chamar a rua inteira pra comer um bacalhoada em casa. Logo ali no cemitério do Brás está o jazigo da minha família porque fazemos parte desse mar de gente que aqui se aninhou. Ali estão todos eles. Você pode ver os restos mortais de cada um deles quando algum parente morre e, durante o enterro, tiram todos aqueles sacos azuis. Apenas sobras do que foram essas pessoas que construíram a minha história, que me fizeram nascer aqui. Não se engane. É uma cena terrível. O jazigo parece um péssimo lugar pra passar o resto da eternidade. A calçada está toda quebrada e não há quase nenhum túmulo bonito porque passou a época em que as pessoas se preocupavam em manter os jazigos devidamente apresentáveis. O cemitério do Brás é um lugar muito complexo. Na década de 70 era normal que as pessoas fossem visitar seus antepassados e aproveitassem pra fazer um piquenique e passar o domingo. Se fizer isso hoje talvez você não se divirta tanto quanto o esperado mas, uma vez pisando lá, você se torna um ponto num mar de histórias que circundam o cemitério do Brás. 

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Morte

    Tem sido muito difícil pra mim conviver com a morte. Saber de sua presença constante. A distância e a espreita. Seguindo de perto os meus passos e usurpando a vida de pessoas ao redor. A morte faz da vida uma benção cruel. Nos torna seres impotentes em luto. E, ao mesmo tempo, nos dá a graça de tornar todos os problemas anteriores aquele fato indubitavelmente insignificantes. Todos os odiados, os imbecis, as irritações, os amores, a política, a bolsa de valores, os refugiados na síria e até os medos que caminham junto com nosso sangue na corrente sanguínea. Nesse sentido, a morte é uma benção porque faz pouco de nós, nos mostra que somos absolutamente nada enquanto vivemos na imbecilidade do nosso próprio ego. A vida é um susto e a morte, talvez, o alívio. Porém, o luto por trás de toda a dor inconsolável é agridoce porque, no fundo, é uma benção amar alguém além dos limites impostos por sei lá quais sejam as forças do universo que nos prendem nesse planeta. É uma benção saber que podemos sentir coisas por pessoas que são fisicamente incapazes de provocar qualquer tipo de emoção em nossos corpos. É uma despedida, um adeus e, principalmente, uma certeza.

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