Estranhices de Beatriz
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Estranhices de Beatriz
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Estranhices de Beatriz
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

João Antônio

    Na rua João Antônio bate uma brisa perfeita. A rua é reta. O asfalto é singularmente defeituoso e está sempre coberto por uma camada de frutinhas amassadas que caem vez ou outra das árvores que adornam a rua. Na rua João Antônio só chove quando as plantas pedem e o sol só brilha quando chega o momento da grama crescer sutilmente sobre o cimento. Na rua João Antônio o único clima do ano é a poluição porque nem a rua João Antônio é livre deste fardo. Não há tristezas ou mágoas, apenas nostalgia e trabalho. Não há felicidades e festas, apenas esforço e delicada poesia. Na rua João Antônio ninguém chora porque não há lugar para as lágrimas escaparem. Lá ninguém sorri também porque sorrisos já foram em passos largos do passado. Na rua João Antônio há gente como a gente que vive desde sempre na vendinha, na casinha, na vilinha vivendo suas vidinhas. Na rua João Antônio há trabalhador que não sabe quem é Platão, quem dirá Sartre. Há gente preocupada com a família, com a comida, e com o cheiro do molho que se fez no dia. Na rua João Antônio é o mesmo molho, todo dia. Simples. Tudo é simples na rua João Antônio onde as nuvens vivem delicadamente pois sabem que ali não há nada para ver, brigas para apartar e sonhos para despertar. Na noite da rua João Antônio há cheiro de chuva mas nunca chove. Há rastros de vultos de quem construiu uma fábrica, fez uma família, uma rua e então um bairro. Dizem por ai, contradizendo todas canções que já cantaram sobre essa cidade, que na rua João Antônio e apenas na rua João Antônio pode-se ver estrelas brilhando. Todas as noites.

Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Pink Tea, a cara do pecado.

   Acontece que esses dias foi meu aniversário. 19 anos, acredita? Muito obrigada, eu sei. Mas não é sobre isso a história, ela apenas começa com esse fato único da minha vida. Comemorei meu aniversário num bar com direito a sobremesa de graça, reserva pra 15 amigos e uma placa com meu nome na porta do estabelecimento. Junto com aniversário, é claro, vem presente. A princípio pensei que não ganharia muitos esse ano por causa da crise mas não foi isso que ocorreu. Ganhei muito mais do que esperava. Duas blusas, um perfume, uma caneca térmica, um vale presente, um pijama, um sapato, um chaveiro, uma fish eye e, finalmente, um litro de sabonete líquido. Vou parar nesse último porque é aqui que realmente começa essa história. Amei meu sabonete líquido. Sabonete líquido é caro e dificilmente aparece aqui em casa. É uma delícia, aquele cheiro maravilhoso e a sensação de que pela primeira vez na vida minha pele está realmente limpa, livre de todas as impurezas e mais hidratada do que blogueira fitness. Vinha numa grande embalagem rosa onde se lia " Pink Tea " e logo embaixo " aroma de peônias". Adorei. Então, eis que finalmente fui usar meu sabonete. Muito cuidado nessa hora, pensei, meu irmão usa o mesmo banheiro que eu e ia ser horrível se ele acabasse com todo meu sabonete uma toada só. Fiquei alguns minutos pensando na melhor maneira de impossibilita-lo de acabar com meu presente. Talvez se eu retirasse meu pink tea do banheiro após todos os meus banhos... Era uma ideia boa mas sou muito bagunçada e nunca iria lembrar de tirar aquela coisa meiga do box todos os dias. Talvez alguma coisa que impedisse a saída do líquido... Mas onde que logo eu iria achar uma coisa dessas? Talvez comunicar meu irmão da importância que aquele sabonete tinha pra mim... Mas conhecendo ele, ia ser como psicologia reversa e ele acabaria usando ainda mais do que eu temia. Acabei desistindo, tomei meu banho delicioso com aroma de peônias e deixei o pote lá sem nenhuma proteção. A surpresa veio de manhã quando percebi, logo após o banho do meu irmão, que meu sabonete estava intacto e do jeitinho que eu havia deixado. E não era apenas isso, meu irmão também abriu um sabonete branco novo. Fiquei indignada. Nada poderia me deixar mais indignada. Meu querido pink tea com cheiro de peônias era um pecado pro meu irmão. Onde já se viu ele andar por ai banhado num gracioso perfume? O que achariam dele? Da sua reputação? Nenhuma resposta mais era cabível. O que era o amor da minha vida era um absurdo meu irmão. Absurdo. Relacionei com tudo, machismo, feminismo, relacionamentos complicados entre irmãos. Mas no final foi isso. Meu querido sabonete era, no final das contas, a cara do pecado. 

Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸
Você leu a pasta de história
escrita por