ARTES

João Antônio

Beatriz Langella
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Beatriz Langella

    Na rua João Antônio bate uma brisa perfeita. A rua é reta. O asfalto é singularmente defeituoso e está sempre coberto por uma camada de frutinhas amassadas que caem vez ou outra das árvores que adornam a rua. Na rua João Antônio só chove quando as plantas pedem e o sol só brilha quando chega o momento da grama crescer sutilmente sobre o cimento. Na rua João Antônio o único clima do ano é a poluição porque nem a rua João Antônio é livre deste fardo. Não há tristezas ou mágoas, apenas nostalgia e trabalho. Não há felicidades e festas, apenas esforço e delicada poesia. Na rua João Antônio ninguém chora porque não há lugar para as lágrimas escaparem. Lá ninguém sorri também porque sorrisos já foram em passos largos do passado. Na rua João Antônio há gente como a gente que vive desde sempre na vendinha, na casinha, na vilinha vivendo suas vidinhas. Na rua João Antônio há trabalhador que não sabe quem é Platão, quem dirá Sartre. Há gente preocupada com a família, com a comida, e com o cheiro do molho que se fez no dia. Na rua João Antônio é o mesmo molho, todo dia. Simples. Tudo é simples na rua João Antônio onde as nuvens vivem delicadamente pois sabem que ali não há nada para ver, brigas para apartar e sonhos para despertar. Na noite da rua João Antônio há cheiro de chuva mas nunca chove. Há rastros de vultos de quem construiu uma fábrica, fez uma família, uma rua e então um bairro. Dizem por ai, contradizendo todas canções que já cantaram sobre essa cidade, que na rua João Antônio e apenas na rua João Antônio pode-se ver estrelas brilhando. Todas as noites.