MULHERES

Pink Tea, a cara do pecado.

Beatriz Langella
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Beatriz Langella

   Acontece que esses dias foi meu aniversário. 19 anos, acredita? Muito obrigada, eu sei. Mas não é sobre isso a história, ela apenas começa com esse fato único da minha vida. Comemorei meu aniversário num bar com direito a sobremesa de graça, reserva pra 15 amigos e uma placa com meu nome na porta do estabelecimento. Junto com aniversário, é claro, vem presente. A princípio pensei que não ganharia muitos esse ano por causa da crise mas não foi isso que ocorreu. Ganhei muito mais do que esperava. Duas blusas, um perfume, uma caneca térmica, um vale presente, um pijama, um sapato, um chaveiro, uma fish eye e, finalmente, um litro de sabonete líquido. Vou parar nesse último porque é aqui que realmente começa essa história. Amei meu sabonete líquido. Sabonete líquido é caro e dificilmente aparece aqui em casa. É uma delícia, aquele cheiro maravilhoso e a sensação de que pela primeira vez na vida minha pele está realmente limpa, livre de todas as impurezas e mais hidratada do que blogueira fitness. Vinha numa grande embalagem rosa onde se lia " Pink Tea " e logo embaixo " aroma de peônias". Adorei. Então, eis que finalmente fui usar meu sabonete. Muito cuidado nessa hora, pensei, meu irmão usa o mesmo banheiro que eu e ia ser horrível se ele acabasse com todo meu sabonete uma toada só. Fiquei alguns minutos pensando na melhor maneira de impossibilita-lo de acabar com meu presente. Talvez se eu retirasse meu pink tea do banheiro após todos os meus banhos... Era uma ideia boa mas sou muito bagunçada e nunca iria lembrar de tirar aquela coisa meiga do box todos os dias. Talvez alguma coisa que impedisse a saída do líquido... Mas onde que logo eu iria achar uma coisa dessas? Talvez comunicar meu irmão da importância que aquele sabonete tinha pra mim... Mas conhecendo ele, ia ser como psicologia reversa e ele acabaria usando ainda mais do que eu temia. Acabei desistindo, tomei meu banho delicioso com aroma de peônias e deixei o pote lá sem nenhuma proteção. A surpresa veio de manhã quando percebi, logo após o banho do meu irmão, que meu sabonete estava intacto e do jeitinho que eu havia deixado. E não era apenas isso, meu irmão também abriu um sabonete branco novo. Fiquei indignada. Nada poderia me deixar mais indignada. Meu querido pink tea com cheiro de peônias era um pecado pro meu irmão. Onde já se viu ele andar por ai banhado num gracioso perfume? O que achariam dele? Da sua reputação? Nenhuma resposta mais era cabível. O que era o amor da minha vida era um absurdo meu irmão. Absurdo. Relacionei com tudo, machismo, feminismo, relacionamentos complicados entre irmãos. Mas no final foi isso. Meu querido sabonete era, no final das contas, a cara do pecado.