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Lá se foram 5 anos. Quem mais está com saudades de Avenida Brasil?

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Lá se foram 5 anos. Quem mais está com saudades de Avenida Brasil?

(Reprodução/ Rede Globo)

19 de outubro de 2012. Há cinco anos, o país, em clima de final de Copa do Mundo com a seleção brasileira em campo, parava para ver o último capítulo de "Avenida Brasil". No país, a novela das 21h foi um fenômeno de audiência, um fenômeno social e também um fenômeno financeiro. O sucesso da trama de vingança escrita por João Emanuel Carneiro rendeu à Rede Globo mais de RS$ 2 bilhões durante sua exibição, em estimativa feita pela principal revista de negócios do planeta, a Forbes. Escrito assim, pode não parecer muito. Mas vou colocar os zeros para dar uma ideia melhor –R$ 2.000.000.000. Sacou?

Muita gente que nunca tinha assistido a uma única novela sequer rendeu-se à trama. Para o caso de você ter sido abduzido por ETs e morado em Marte de 2012 para cá, eis o resumo do maior sucesso da televisão na década. Se você viveu por essas bandas, pode pular o parágrafo abaixo.

Sinopse

Lá se foram 5 anos. Quem mais está com saudades de Avenida Brasil?

(Reprodução/ Rede Globo)

Uma menina chamada Rita [Mel Maia] leva um golpe em 1999. Ela mora com o pai, Genésio [Tony Ramos], e sua madrasta, Carminha [Adriana Esteves]. Percebe que o pai vai ser roubado pela madrasta e seu amante, Max [Marcello Novaes]. Consegue avisá-lo, mas ele fica tão desesperado que é atropelado pelo jogador de futebol Tufão [Murilo Benício] e morre. A madrasta consegue pegar o dinheiro da família e manda seu amante deixar a menina para se criada pelo homem do saco Nilo [José de Abreu] em um lixão. Lá, a menina é resgatada por um garoto de nome Batata [Bernardo Simões] e passa a morar com a bondosa Mãe Lucinda [Vera Holtz]. O casal de garotos apaixona-se e casa-se no lixão. A menina é adotada e vai morar na Argentina. A madrasta casa-se com o jogador de futebol corroído de culpa pelo atropelamento. Ela adota o menino. Doze anos depois, a menina, agora com nome de Nina [Debora Falabella], volta para se vingar e vai trabalhar como cozinheira na mansão da família Tufão, que fica no fictício bairro do subúrbio carioca do Divino. Ela não é reconhecida pela ex-madrasta e acaba descobrindo que seu Batata, agora, é Jorginho [Cauã Reymond], filho adotivo do jogador de futebol. Isso acontece em menos de dez capítulos. Os outros 170 giram em torno do plano de vingança de Nina, das tentativas de revide de Carminha e da vida cheia de tempero dos outros cerca de 35 personagens.

Recordes de audiência e de consumo de energia

Para o capítulo final, em que o público queria basicamente saber o destino da mega-ultra-blaster vilã Carminha e quem matou o Max, o governo teve de aumentar a oferta de energia elétrica. Temia-se um apagão no país, provocado pelo pico no consumo de luz ao final da trama. As pessoas, enfeitiçadas pela novela, deixavam atividades como tomar banho, ligar a lavadora ou passar a camisa do dia seguinte para o final do capítulo. Já havia ocorrido um pico no capítulo 169, em que Tufão expulsa Carminha de casa.

"Avenida Brasil" bateu os recordes de audiência do ano. Teve mais gente interessada na trama do que na noite em que o Corinthians conquistou a taça da Libertadores da América. Mesmo não tendo superado a audiência de “A Favorita”, outra novela de João Emanuel Carneiro, foi um fenômeno social. Nunca antes as redes sociais repercutiram tanto uma obra da teledramaturgia quanto "Avenida Brasil". Na final, foram mais de 150 mil tuítes, com as hashtags oioioifinal, vaicarminha, jorgetufãoneto, chupetinha entre as 10 mais tuitadas no mundo.

Até telões transmitiam a novela. A então presidente da República, Dilma Rousseff, foi convencida a cancelar sua participação em um comício do então candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PT, Fernando Haddad, com medo de não haver gente suficiente, porque coincidia com o horário do capítulo final. O “Jornal Nacional” dedicou boa parte de sua edição do dia 19 de outubro de 2012  falar do capítulo derradeiro. O interesse era tanto que, terminada a novela, a Rede Globo manteve os personagens vivos, ao fazer um “Globo Repórter” especial sobre "Avenida Brasil".

O folhetim, inspirado na literatura do século 19, virou febre nos seus sete meses, 179 capítulos e 164 horas de duração. As músicas da novela foram apropriadas. Seja nas redes sociais, nas quais a hashtag oioioi, da música tema Vem Dançar Kuduro, de Lucenzo, ocupou os trending topics de março a outubro de 2012. Seja na própria novela, onde personagens cantavam o oioioi ou "Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha", de João Lucas e Marcelo. Há, inclusive, uma cena antológica em que Adriana Esteves acrescentou uma dança da música, que tocava no celular de Max quando Carminha ligava.

Febre consumista

Lá se foram 5 anos. Quem mais está com saudades de Avenida Brasil?

(Reprodução/ Rede Globo)

A novela provocou uma onda consumista. A bolsa da marca Michael Kors virou objeto de desejo do público feminino. Usado por Carminha, um modelo assinado pelo estilista ficou entre os acessórios mais procurados na Central de Atendimento ao Telespectador da Globo. A fama fez com que o estilista abrisse a primeira loja no Brasil. E não foi em São Paulo, maior mercado consumidor. Foi justamente no Rio de Janeiro, cidade onde a trama se passa. “As melhores vilãs têm uma coisa em comum: uma fabulosa noção de estilo. Sharon Stone, em ‘Instinto Selvagem’, Joan Crawford, em ‘Mamãezinha Querida’, Adriana Esteves em 'Avenida Brasil’”, disse Michael Kors, na época em entrevista ao G1.

Nos Estados Unidos, levou tempo até os vendedores de lojas em Miami entenderem por que tantas brasileiras procuravam a “bolsa da Carminha”. Nos locais de venda de produtos populares, e falsificados, no Brasil, também explodiu a venda de imitações do acessório. As joias da antagonista da novela, com o colar de “T” de Tufão, também tiveram versão oficial (custava mais de R$ 10 mil da época) e de camelôs, baratinhas.  

Teses para o sucesso

Desde o capítulo final, muitas teses surgiram para explicar o sucesso de "Avenida Brasil". Muitos especialistas, dentro e fora da academia, dão seus palpites sobre o sucesso. A explicação mais comum é o fato de o autor ter retratado com protagonismo a nova classe média, que consumiu R$ 1 trilhão em 2012.

Como acontece em acidentes aéreos nos quais a culpa não é obviamente do piloto, um sucesso como esse deve-se a uma série intrincada e complexa de fatores. Se fosse apenas o interesse do brasileiro da nova classe média de se ver retratado na novela, ela não teria sido exportada para mais de 130 países, tão diversos culturalmente do Brasil e entre si como Suécia, Turquia e Coreia do Sul. "Avenida Brasil" foi a novela mais rentável da história do Brasil. Ainda hoje algum país está transmitindo a história de vingança, personagens dissimulados, alegria no subúrbio, perdão e redenção.

Sem querer encerrar o assunto, e em homenagem aos 5 anos do final da novela, escolho 5 motivos para o tremendo sucesso do folhetim. Quem quiser pode discordar de mim, no problems at all.

Lá se foram 5 anos. Quem mais está com saudades de Avenida Brasil?

(Reprodução/ Rede Globo)

1. Interpretação magistral da atriz Adriana Esteves

Há quem critique o estilo “barroco” (exagerado) da atriz na construção de sua personagem. Na minha opinião, é o misto de exagero, humanidade e humor (ela é engraçada pra caramba) que a transformaram na tão cultuada atriz. Durante a exibição da novela, me peguei literalmente aplaudindo o desempenho de Adriana Esteves, como eu estivesse em um teatro e ela interpretando ao vivo. Dá pra notar o quanto ela se divertiu e se e jogou na personagem para dar vida à dissimulada malvada. A entrega cênica dela foi tão grande que a pobre foi definhando diante das câmeras. Nas últimas semanas, ela emagreceu tanto que a equipe de figurinistas tinha de ir apertando suas roupas dia a dia, para que não caíssem durante as filmagens. O brilho no olhar da atriz, porém, nunca foi ofuscado. Para quem acha que ela vai ficar marcada somente por essa atuação, sugiro que assista à série Justiça, pela qual a atriz está concorrendo a um Emmy internacional. É outra atuação luxuosa.

2. Roteiro de João Emanuel Carneiro

O autor bebeu em fontes da literatura do século 19 para escrever sua trama e adotou o método dos seriados de TV por assinatura, com a construção de ganchos que prendiam os espectadores entre os intervalos comerciais e entre um capítulo e o próximo. Ele teve a grandeza, também, de permitir que cacos (textos não originais no roteiro) pudessem ser criados pelos atores e diretores, deixando mais viva sua obra. Segundo o autor, ele leu Balzac [1799-1850] enquanto fazia a sinopse. Para ele, "Avenida Brasil" tem muito do [romance] "Ilusões Perdidas". O lixão, avalia João Emanuel Carneiro, é muito Charles Dickens [1812-1870]. “A novela tem um quê de "Oliver Twist".

Lá se foram 5 anos. Quem mais está com saudades de Avenida Brasil?

(Reprodução/ Rede Globo)

3. Direção competente

A diretora Amora Mautner foi responsável pelo núcleo dos Tufão. Ele introduziu o que chamou de “a acústica da família Tufão”, baseada em filmes de Frank Capra e na série americana Família Soprano, em que vários atores falam ao mesmo tempo. Conseguiu também o aval do autor para que cacos (improvisos) pudessem entrar no texto original. Assim, surgiram pérolas como Adauto [Juliano Cazarré] ouvindo “Cordon Bleu”, a emblemática escola francesa de gastronomia, e entendendo “candomblé”. Esse caco, inclusive, foi criado pela malvada Carminha, ops, talentosa Adriana Esteves, durante a passagem de texto. Os outros núcleos ficaram sob direção de José Luiz Villamarim e ele deu ares de cinema encantado ao lixão, por sinal, montado com material reciclável limpo perto do Projac.

Lá se foram 5 anos. Quem mais está com saudades de Avenida Brasil?

(Reprodução/ Rede Globo)

4. Uma feliz constelação de outros excelentes atores, além da magistral Adriana Esteves 

A direção da novela teve a sorte e o talento de escolher um grupo de atores fora da curva. Com cerca de 40 personagens, o que é pouco em termos de teledramaturgia, há vários destaques: Murilo Benício [Tufão], Marcos Caruso [Leleco], José de Abreu [Nilo], Ísis Valverde [Suelen] , Cacau Protásio [Zezé], Marcelo Novaes [Max], Juliano Cazarré [Adauto], José Loreto [Darkson], Debora Falabella [Nina]... Tenho meus preferidos. Talvez você tenha os seus.

5. Explosão das redes sociais

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Além de sucesso de público, a novela foi o primeiro grande fenômeno nas redes sociais, ocupando o primeiro lugar entre assuntos mais falados do Twitter mundial um sem-número de vezes, com as hashtags oioioi, carminha, tufão... e uma coleção quase interminável de memes. Quem se esqueceu da série "A culpa é da Rita" ou "Me serve, vadia?

Foi notável em "Avenida Brasil" a união de uma audiência de respeito com uma repercussão poucas vezes vistas antes. Cada movimento na guerra Nina vs Carminha, cada desfile da periguete Suelen [Ísis Valverde], cada crise de ciúmes de Leleco [Marcos Caruso] em sua tumultuada relação com a "porno teen" Tessália [Débora Nascimento], cada burrice genial de Adauto [Juliano Cazarré] eram amplificados ao vivo pelo zunzunzum das redes sociais, entre as quais o Twitter se destacou. 

Lá se foram 5 anos. Quem mais está com saudades de Avenida Brasil?

(Reprodução/Twitter)

O congelamento de imagem com as luzes da Avenida Brasil virou febre. Fã declarado da novela, o apresentador do "Jornal Nacional", William Bonner, fez a sua imagem congelada [imagem acima].

Para homenagear os cinco anos do fim da novela, vou fazer ainda 5 textos com 5 x coisas.

1. Os 5 melhores atores de Avenida Brasil, além da deusa, né?

2. 5 momentos de Avenida Brasil que bombaram na internet

3. Os 5 maiores furos no roteiro de Avenida Brasil

4. 5 frases inesquecíveis de Carminha

5. 5 coisas que talvez você não saiba (ou tenha se esquecido) de Avenida Brasil

Se a saudade tá batendo forte, há jeitos de rever a novela. Assinante da Globoplay tem à sua disposição os 179 capítulos. Atualmente (19 de outubro de 2017), a assinatura mensal custa R$ 16,90. A Globo lançou ainda um box de 12 DVDs com uma versão reduzida da novela, com 37 horas de duração. Seu preço varia, também em outubro de 2017, de R$ 99 a R$ 150 em lojas como a Livraria Cultura, Submarino e Fnac.

E temos uma boa notícia: Adriana Esteves voltará a interpretar uma vilã de João Emanuel Carneiro. Será uma cafetina baiana que explorará a personagem de Deborah Secco na nova novela do autor que entrará no ar no primeiro semestre de 2018 na Rede Globo. O protagonista será Cauã Reymond, que viverá um cantor de axé em decadência que volta ao sucesso quando uma falsa notícia de que ele morreu incendiará as redes sociais e as vendas de seus antigos CDs.