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Qual é a importância de 'Sobrevivendo no Inferno', do Racionais, 20 anos depois?

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Qual é a importância de 'Sobrevivendo no Inferno', do Racionais, 20 anos depois?

(Imagem: Reprodução)

Completa-se agora em dezembro 20 anos do lançamento daquele que é provavelmente o maior pilar do rap nacional da história, Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC´s. O disco, lançado de maneira independente pela Cosa Nostra, é um fenômeno de vendas (até hoje foram 1,500,000 cópias) e figurou na 14ª colocação na lista dos 100 melhores discos da música brasileira da revista Rolling Stone, ficando atrás de nomes como Cartola, Jorge Ben, Chico Buarque e Caetano Veloso.

Mas por que Sobrevivendo no Inferno é tão importante assim? Na época do auge, em junho de 1998, a revista Showbizz publicou um gráfico que mostrava que o disco era mais vendido que os três grandes nomes do rock daquele ano (Oasis, U2 e Rolling Stones) juntos no Brasil:

O grupo já era experiente (Sobrevivendo foi o quinto álbum de estúdio) e sem dúvida mais entrosado. As letras de Mano Brown, que faziam duras críticas ao racismo e à desigualdade social do Brasil do final dos anos 90, estavam mais afiadas, e Edi Rock, que sempre foi o cantor mais smooth do Racionais, estava mais inspirado do que nunca, em músicas como "Qual Mentira Vou Acreditar" e "Mágico de Oz".

O disco abriu portas tanto para o grupo quanto para o rap brasileiro, que ainda estava longe do mainstream na época. O Racionais conseguiu colocar um clipe de mais de oito minutos tocando incessantemente na programação da MTV. "Diário de Um Detendo", gravado no Carandiru, presídio hoje desativado em São Paulo, levou o prêmio principal no VMB de 1998, a Escolha da Audiência, e Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay deixaram todos em choque com uma apresentação histórica de "Capítulo 4, Versículo 3":

Essa "entrada" do Racionais em emissoras como a MTV foi fundamental para tirar o grupo de um nicho, onde já tirava tudo de letra, e os colocar no mundão. Depois de Sobrevivendo no Inferno, o playboy, o classe média, o "cidadão de bem", além do próprio cara do gueto, estavam ouvindo as palavras de Mano Brown. O disco é tão icônico que foi parar nas mãos do Papa Francisco, depois de um encontro que o líder da igreja católica teve com o então prefeito de São Paulo, Fernando Haddad.

O próprio Racionais fez um disco ainda mais redondo e com mais tempero depois, Nada Como Um Dia Após o Outro Dia, de 2002. Mas é inegável que Sobrevivendo no Inferno é até hoje o mais importante não só na história do grupo, como também na história do rap nacional. Todos os MCs que estão cantando aí hoje agradecem.