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Estamos todos matando o jornalismo

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Estamos todos matando o jornalismo

Fotos: Divulgação

Além de trazerem subtítulos esquecíveis, filmes como The Post: A Guerra Secreta (que estreou por aqui em 25 de janeiro com duas indicações ao Oscar) e Spotlight: Segredos Revelados (vencedor do Oscar 2016) fazem a gente lembrar de todo romantismo ao redor do jornalismo e também de como não é mais praticável a forma como os repórteres-personagens trabalham em suas cenas.

Peguemos o exemplo do filme do Spielberg: tudo começa quando o editor do The Washington Post Ben Bradlee (Tom Hanks) suspeita que alguma notícia grande deve ser revelada em breve pelo concorrente The New York Times. Ele tem suas suspeitas porque um de seus principais repórteres não escreve artigo algum em meses sem estar de férias. Mais tarde, haveria a denúncia de que o governo dos Estados Unidos já sabia há muitos anos que a Guerra do Vietnã era uma causa perdida, mas eles continuavam a mandar soldados para morrer na Ásia. Hoje em dia é impensável deixar um profissional da redação por meses com dedicação exclusiva a uma matéria. Via de regra, ele precisaria “produzir notas” (por mais estranho que possa soar essa expressão, como se notícias fossem produzidas como sapatos) diariamente e poderia tocar paralelamente essa história bombástica, quase como um projeto pessoal que os benevolentes chefes deixam que ele tenha.

Portanto, cada vez que se busca mais rapidez do que qualidade e apuração de fatos, o jornalismo padece. Um exemplo dessa conduta se dá sempre que há um anúncio público: desde a taxa básica de juros ou as aspas em um painel da ComicCon. Nesses momentos, os repórteres disputam para ver quem publica mais rápido essa notícia (que está longe de ser um furo de reportagem, uma vez que é um anúncio público). Começa então o “campeonato de digitação”, que resulta em uma vasta oferta de textos insípidos, semelhantes entre si e banais.

Entretanto, a culpa desse esvaziamento do jornalismo não é só dos cabeças nas empresas de comunicação. Todos nós colaboramos em maior ou menor grau para o agravamento dessa situação. A verdade cruel é que cada um de nós dá uma martelada no caixão do menino jornalismo.

Estamos todos matando o jornalismo

Sejamos didáticos. Nos tempos do The Post, Spotlight ou atualmente, as empresas de comunicação têm duas entradas principais de verba, que pagam os (risíveis) salários dos jornalistas: anúncios publicitários e venda de conteúdo. O preço de capa e as assinaturas de outrora agora trajam a roupagem dos paywalls de sites. E os anúncios impressos assumiram a forma de banners, pop-ups e vídeos publicitários no começo, meio (o horror! o horror!) ou fim dos conteúdos audiovisuais produzidos. Portanto, matamos um pouco o jornalismo toda vez que damos um jeitinho de ler aquela matéria que o site bloqueou para não-assinantes, e toda vez que instalamos um adblock.

Quando o assunto é publicidade, o pessoal do marketing (esses fofos!) também entra na fila para participar do corredor polonês onde está o garoto jornalismo. As verbas dos anúncios são direcionadas para o que dá maior audiência, muitas vezes sem muito peso para que tipo de audiência é essa e qual conteúdo é endossado/estimulado.

Muitos produtores de “conteúdo” de qualidade questionável contam com patrocinadores de bolsos polpudos. Assim, temos uma profusão de celebridades vazias, que são famosas apenas pelo fato de serem famosas. O sujeito tem um monte de seguidores (não importa se comprou likes) e é convocado com um belo cachê para comentar o Oscar, por exemplo, mesmo sem qualquer conhecimento cinematográfico, só pelos seguidores mesmo. Isso dá fama para esse ser, que ganha mais seguidores e mais patrocínio. Então é chamado para apresentar final de reality show, dublar a próxima animação, estrelar um filme, fazer propaganda da operadora de celular, entrevistar com exclusividade uma celebridade (de verdade) internacional, ser jurado em um concurso de empadas ou sei lá mais o quê e o ciclo se perpetua...

Se quem convida os tais influencers para essas oportunidades nem um pouco relacionadas ao conteúdo que eles veiculam não vai mudar de comportamento, cabe a nós não bater palma pra maluco dançar. Tem muita gente boa produzindo textos, vídeos, playlists e todo tipo de conteúdo virtual de qualidade. Curta essas pessoas, indique os canais para conhecidos, compartilhe o que que julgar relevante e, se possível, pague a assinatura para ter acesso a material bom mesmo.

Por outro lado, também tem uma porrada de gente fazendo micagens online. Gente que comenta no mesmo canal encontros sexuais em discursos cheios de preconceitos, reclamam da tapioca que queimou na frigideira ou do produto para cabelo que não reagiu bem, mergulham em uma banheira de gelatina e outras atividades afins. Cada vez que seguirmos um “produtor” dessa estirpe, damos uma punhalada no rapazote jornalismo.

Há todas essas pequenas revoluções pessoais que podemos praticar para virar o jogo, mas meu otimismo em relação isso está mais enterrado do que o jornalismo em si. Ao que tudo indica, casos de grandes reportagens que denunciem escolhas podres de governantes ou casos de pedofilia sistêmica no meio religioso serão ingredientes de filmes de época e estarão nas páginas dos livros de História. Isso enquanto uma sociedade que dá voz a imbecis ainda tiver livros de História.