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O "RuPaul's Drag Race brasileiro" com torta na cara e lipsync de Ivete voltou!

Fábio Garcia
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Fábio Garcia

Sucesso na internet e em canais pagos obscuros, o reality show "RuPaul's Drag Race" é um fenômeno mundial. O formato é tão querido pelo público que todo mundo fica elétrico quando surge uma notinha falando sobre estudos para lançar uma versão brasileira, mas o projeto nunca vai pra frente. O que pouca gente mais novinha na internet não deve saber é que "RuPaul's Drag Race" teve sim uma ~versão brasileira~ que bombou nas redes, e é disso que vou lembrar agora. Esse é "Glitter - Em Busca de um Sonho".

O "RuPaul's Drag Race brasileiro" com torta na cara e lipsync de Ivete voltou!

(Reprodução/TV Diário)

Nos grandes centros urbanos estamos acostumados com emissoras como Globo e SBT que têm uma larga experiência em programas de auditório, todos bem produzidos, com cenários impecáveis e formatos comprados no exterior. Entretanto, há todo um universo de programas de auditório bagaceiras Brasil adentro que divertem com a falta de orçamento, criatividade e um tom de precariedade que nos encanta.

Durante muitos anos, o "Programa Ênio Carlos" foi exibido na TV Diário em Fortaleza exaltando figuras locais e quadros irreverentes. Um deles, inclusive, foi o reality show "Glitter - Em Busca de Um Sonho", co-apresentado pela performer Lena Oxa e que na teoria seria uma disputa de drags nordestinas valendo a realização de um sonho que variava entre a abertura de um salão de cabeleireiro e um cruzeiro internacional.

A competição foi exibida em 2012 e virou moda entre o pessoal da internet pela quantidade de situações bizarras que eram promovidas naquele palco. Grandes arrobas influenciadoras das redes sociais na época até chegaram a comentar a final ao vivo através de um streaming da TV Diário disponibilizado pela emissora. Olha a proporção que a coisa tomou! Mas, afinal, o que fez o "Glitter" fazer tanto sucesso assim? Posso tentar explicar.

Essa era a abertura do reality show, uma surra de efeitos de Windows Movie Maker aliada a fotos cortadas rusticamente no Photoshop. Já na apresentação dos participantes podemos ver que a produção do programa não deve ter conseguido selecionar nove Drag Queens para o cast, então foram inserindo figuras completamente aleatórias até completar o número estipulado. Só isso justifica a presença do participante Anjo do Ouro, um gogoboy magrelo com asas negras cujo sonho era uma moto.

Ao contrário da previsibilidade do "RuPaul's Drag Race", que sempre conta com a mesma estrutura de episódios e uma inevitável disputa de lipsync, o "Glitter" inovava a cada programa trazendo do éter provas cada vez mais absurdas. A eliminação do primeiro episódio aconteceu depois de uma prova na qual as drags tinham de trocar um pneu de carro, e no segundo programa foi uma disputa de conhecimentos gerais com torta na cara (!). Foi daí que veio essa pérola da televisão brasileira:

VEREADORES.

"Glitter" sabia mexer com a expectativa do público: a prova de repescagem envolvia uma longa disputa para pegar bolinhas coloridas da plateia, e após muitos minutos o apresentador Ênio Carlos anunciou que as pontuações variadas das bolinhas não valiam nada e que seria uma disputa de sorte mesmo. E só perto das finais que rolou o esperado lipsync: algumas arriscavam dublar músicas internacionais enquanto Rochelly Santrelly apenas ia para um lado do outro do palco dublando um clássico de Ivete Sangalo sem mexer a boca. Tudo isso julgado por empresários locais, como donos de pastelarias e gerentes de mercadinhos da região.

Mas o quadro de maior sucesso do "Glitter" era o "Fala na Cara", na qual Ênio Carlos promovia uma troca gratuita de ofensas entre as participantes. Não valia ponto e nem rendia uma vaga para o paredão, era apenas a boa e velha troca de coices para o delírio de um público ávido por barraco.

Com o sucesso na web, o reality foi esticado: Ênio Carlos introduziu novas participantes no meio da competição e rolou uma prova de repescagem que trouxe de volta D'mon (que veio ser a vencedora do reality, mesmo tendo sido eliminada por demorar para trocar o pneu do carro no primeiro episódio). Para render ainda mais, o "Programa Ênio Carlos" fazia divertidas matérias com as drags visitando pontos turísticos de Fortaleza.

As situações forçadas para virar "meme" (numa época que nem se usava esse termo) acabaram não emplacando, afinal a graça mesmo vinha de situações naturais. O momento que ficou eternizado no coração do brasileiro foi essa discussão entre Santrelly e Sangalo que rendeu vários memes como "Bicha, a senhora é destruidora mesmo" e "choque de monstro":

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Infelizmente apenas a primeira edição do "Glitter" fez sucesso. As seguintes acabaram flopando por escalação de drags forçadas que tentavam emplacar bordões ensaiados. O baque definitivo em "Glitter" foi a morte do apresentador Ênio Carlos e o óbvio fim de seu programa.

Entretanto, a organizadora Lena Oxa anunciou em suas redes sociais que já está preparando mais uma temporada, então vamos acompanhar para ver se o programa consegue se redimir e voltar a oferecer memes maravilhosos.