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O último papel da Rogéria em novelas não fez justiça ao seu talento

Fábio Garcia
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Fábio Garcia

A morte não costuma ser muito justa com a pessoa. Talentosíssima atriz, Rogéria partiu para ir fazer alegria das pessoas lá em cima e deixou para nós um currículo vasto de participações em muitas novelas. Infelizmente, seu último papel em folhetins não fez jus a sua capacidade dramatúrgica. Sim, vamos falar de sua participação em "Babilônia".

O último papel da Rogéria em novelas não fez justiça ao seu talento

(Reprodução/ Globo)

"Babilônia" seguramente é o que podemos chamar de maior fracasso na faixa das nove de TODOS OS TEMPOS (com caps lock mesmo). Alguém pode até comentar que o posto deveria ser ocupado pela novela na qual Globo precisou inventar um terremoto para matar 99% dos personagens, mas pelo menos essa passou a dar certo depois das mudanças. "Babilônia" começou como uma grande promessa, mas chocou o público já no primeiro capítulo com cenas de violência e sexo feitas apenas para causar. Para piorar a situação, o público rejeitou o beijo entre as personagens de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, colocado sem qualquer preparação de terreno para a parcela mais conservadora da população. O que veio depois disso foi uma sucessão de equívocos.

Lá pelo meio de "Babilônia", os autores (Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga) viram que não tinha mais o que fazer e decidiram tocar a novela de qualquer jeito até o final, dando destaque para núcleos ainda mais desinteressantes que o dos protagonistas. Foi aí que entrou Rogéria, interpretando o pai do maléfico traficante Osvaldo (Werner Schünemann). Sim, pai.

O último papel da Rogéria em novelas não fez justiça ao seu talento

(Reprodução/Globo)

Rogéria entrou em "Babilônia" para fazer aconselhamento de personagens do triângulo amoroso cômico que não fazia rir. Ela basicamente estava lá para chocar a sociedade conservadora do prédio em que todos viviam (afinal, ela era para ser pai de um traficante mas voltou como Úrsula) e aconselhar a neta Gabi (Kizi Vaz). Embora fosse interessante a ideia de colocar Rogéria em meio aos personagens preconceituosos, muitas das mensagens que ela poderia passar não adiantavam porque o público já havia abandonado a novela.

Como era de se esperar, a novela já estava morta e mesmo a participação de Rogéria na metade final da trama não conseguiu ajudar "Babilônia" a sair do atoleiro de marasmo. Mais triste ainda foi perceber que a última participação em novelas tenha sido justo em uma personagem tão fraquinha e aquém de suas capacidades.

O último papel da Rogéria em novelas não fez justiça ao seu talento

(Reprodução/Globo)

Felizmente, temos memórias ótimas de Rogéria em outras novelas. Ela brilhou como Ninete em "Tieta" (inclusive sua participação na novela está sendo reprisada pelo Viva), a divertida Carolina de "Paraíso Tropical" e teve sua chance de usar roupa de época como Alzira de "Lado a Lado".

Mas para entender o verdadeiro brilhantismo de Rogéria, além de sua importância para o Brasil, a melhor forma é através do documentário "Divinas Divas" (2016).  Nele acompanhamos um reencontro do primeiro grupo de artistas travestis do Brasil que fazia sucesso durante o período da ditadura, além da preparação para um novo espetáculo. Em meio aos ensaios, viajamos nas memórias de cada uma daquelas artistas e descobrimos como elas lidavam com o preconceito e a moral da população. É de emocionar, juro.

O último papel da Rogéria em novelas não fez justiça ao seu talento