COMUNICAÇÃO

SBT e Record gastaram uma grana para ‘descobrir’ que a Globo tem mais audiência

Fábio Garcia
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Fábio Garcia

O que você faria se tivesse um dinheiro sobrando? Pagaria umas contas? Investiria numa reforma? Bem, o SBT e a Record pegaram uma graninha que tinham e apostaram as fichas num instituto de pesquisa de audiência para provar que o Ibope sempre favorecia a Globo.

SBT e Record gastaram uma grana para ‘descobrir’ que a Globo tem mais audiência

(Montagem)

A Globo é a maior audiência do país, isso não é mistério para ninguém. Desde a implantação do chamado "Padrão Globo de Qualidade" há algumas décadas e de uma grade engessada que ensanduichava novelas com telejornais, a emissora dos Marinho conseguiu uma hegemonia difícil de bater. Mas a Globo não é campeã só por motivos de logística: ela investe muito dinheiro com bons profissionais e tem um know-how enorme sobre como fazer televisão no Brasil. O resultado é que a Globo consegue ser líder até se exibir uma tela preta dizendo que o sinal está fora do ar.

Isso, claro, incomoda as concorrentes que buscam desesperadamente a liderança (e mais contratos publicitários), como a Record. Lá em 2004, a Record usou o truque de dinheiro infinito do "The Sims" e investiu em novelas que fossem muito parecidas com as da Globo. Até inventaram um slogan chamado "A caminho da Liderança"! No fim das contas, o negócio morreu bem antes da tal liderança e atualmente a emissora disputa pau a pau o segundo lugar com o SBT.

Em algum ponto da história, a Record e o SBT começaram a questionar a liderança da Globo. Numa provável reunião entre representantes das duas emissoras, algum executivo deve ter dito "não é possível que a Globo sempre seja líder de audiência, ela deve estar de trelelê com o Ibope!". Para quem não sabe, o Ibope é o único instituto de medição que calcula a audiência no país.

SBT e Record gastaram uma grana para ‘descobrir’ que a Globo tem mais audiência

Alegando que a liderança da Globo era uma mutretagem com o instituto de audiência vigente, SBT e Record se uniram à RedeTV (que sempre embarca nessas aventuras loucas, vide a história da Simba) para fazer uma vaquinha e trazer o instituto GfK para o Brasil. Segundo elas, o instituto alemão poderia trazer a VERDADE por trás da audiência, e finalmente descobriríamos que o Ibope é supostamente comprado pela Rede Globo de Televisão. As três emissoras gastaram pelo menos 40 milhões de reais (um valor ainda menor que as malas de dinheiro de Geddel) para que o serviço concorrente do Ibope se instalasse no Brasil. Mas a coisa não funcionou tão bem assim.

O GfK teve todos os problemas do mundo para começar a funcionar. Lembro que eu já escrevia sobre televisão para sites quando o instituto deveria começar a operar, lá pelos idos de 2013, e toda semana rolava indiretinhas de algum diretor de programação do SBT ou da Record nas redes sociais, na mesma proporção de notícias sobre o adiamento do GfK. Sabem quando foi que as emissoras começaram a receber os relatórios de audiência do instituto alemão? Em 2016, anos depois do previsto.

SBT e Record gastaram uma grana para ‘descobrir’ que a Globo tem mais audiência

(Reprodução/Globo)

Mas antes tarde do que nunca, certo? Isso quer dizer que a Globo foi desmascarada e que os números do Ibope estão errados? Bem... em partes. SBT, Record e a RedeTV descobriram sim que os números de audiência da Globo estavam diferentes da medição do Ibope. O problema era: no GfK, a Globo às vezes chegava a ter 50% A MAIS que no Ibope (o jornalista Ricardo Feltrin apurou na época e fez uma matéria bem explicadinha).

E alguns meses após a divulgação desses números, o casamento do GfK com as emissoras acabou na justiça: segundo o site Notícias da TV, o instituto alemão demitiu uma centena de profissionais e deve encerrar a medição de audiência no Brasil. Alegando que o GfK não cumpriu a "qualidade prometida", Record, SBT e RedeTV romperam com o instituto e ainda estão na justiça pedindo o retorno dos milhões que investiram para descobrir a verdadeira audiência. Que coincidência que o rompimento veio logo depois de descobrirem que a Globo continua líder de audiência mesmo com outra medição, né?

O mais competitivo realmente seria que as emissoras do Brasil estivessem mais em pé de igualdade, estimulando programas cada vez melhores. Mas isso se consegue investindo na própria programação, e não contratando um instituto diferente para tentar provar uma suposta maracutaia da líder. Talvez se os milhões gastos para trazer o GfK para o Brasil tivessem ido para a parte criativa das emissoras, elas estariam com uma programação um pouco melhor para o público e conseguissem a audiência naturalmente.