Fernando Bonini's story
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A família vestida de Aladdin sofreu linchamento virtual. Lidem com isso

igornatusch
há 2 anos4 visualizações

Em tempos duros como os que vivemos, onde a ação antecede a reflexão e todo mundo parece contaminado pela vontade de ser o justiceiro da vez, um caso como o da família que se fantasiou de personagens do desenho Aladdin é tristemente simbólico. Não acho correto dar grandes detalhes do acontecido, muito menos reproduzir uma vez mais a foto que gerou toda a celeuma, mas tentemos explicar o que houve para quem (afortunadamente) nada sabia do caso até então. Um casal (nada caucasiano, mas também não imediatamente relacionável com a etnia negra), com seu filho adotivo (negro), participou de uma festa carnavalesca vestindo roupas aludindo ao desenho da Disney. O menino usava trajes do personagem Abu, que é o melhor amigo de Aladdin e, como sabemos, um macaquinho. Foi suficiente para que uma foto da família viralizasse, com multidões que acreditavam estar denunciando o que consideraram racismo na imagem. O pai veio a público rebater a acusação, dizendo que queria retratar a amizade entre Aladdin e Abu e que o racismo estava nos olhos de quem via - insuficiente, é claro, para aplacar a sanha de justiça de quem promove linchamento pelas redes sociais.

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A família vestida de Aladdin sofreu linchamento virtual. Lidem com isso

Sim, usei a palavra e a repetirei: linchamento. O que todas as pessoas que divulgaram a foto (a maioria sem sequer tomar o cuidado de disfarçar digitalmente o rosto da criança) promoveram foi um linchamento virtual, onde a família foi condenada por racismo sem nenhum direito a defesa, sem qualquer chance ou tentativa de compreensão, de forma impiedosa e cruel. Assim agiram a partir de um arremedo de argumento, dizendo que era necessário proteger a criança de uma situação vexatória - e para salvá-la do horror a expuseram a um horror maior ainda, espalhando para todos os lados a sua imagem, potencializando a possível vergonha e colocando em risco a estrutura familiar que essa criança (vinda, lembremos, de um orfanato) começa a construir. Que benefício trouxeram ao menino vestido de Abu as multidões que ousam dizer que tentaram protegê-lo, mas só o atingiram ainda mais - e que acusam simploriamente de racismo também aqueles que ousam discordar do modo como tudo foi conduzido?

Dirão alguns que racismo é algo odioso e deve ser condenado sem trégua, sem rodeios ou ponderações. Não percebem, esses que se julgaram portadores de uma verdade indiscutível, que usam o exato argumento dos que defendem a anulação dos direitos humanos, a condenação pelo tribunal do senso comum, a morte inclemente do suposto bandido em flagrante delito. Deve o racista ser marcado a ferro e fogo, de forma que nunca mais possa andar à rua sem que seja cuspido e humilhado por seu pecado? Se racismo cometeu essa família, devemos assumir de imediato que o fizeram com a mais pútrida das intenções, ignorando que possam ter assim agido por ignorância ou de forma desastrada? Não existe diferença entre o assassino de negros e alguém que erra reproduzindo coisas que não conseguiu (ainda) enxergar como preconceituosas? Não devemos, por acaso, agir de acordo com os tons de cinza de um assunto tão grave e tão disseminado mesmo nos mais diminutos gestos de nossa sociedade? É isso que desejamos - pular todas as etapas de discussão e passar direto para a fogueira, tochas em punho, transformando o Facebook em nossa Salem coletiva? Não será esse desespero justiceiro uma forma de calar, com ânsia e severidade, o traço do criminoso que enxergamos em nós mesmos?

Quem compartilha imagem de um suposto criminoso nas redes é um irresponsável, que pode estar cometendo uma brutal injustiça e até ajudando um ato criminoso e trágico contra o denunciado. Aconteceu agora mesmo no RS, com multidões compartilhando a foto do suposto estuprador de uma criança de 5 anos - foto, obviamente, de alguém que nada tinha a ver com o caso. E a mesma lógica, agradável ou não, vale para quem faz "denúncias" via Twitter ou Facebook, expondo o comportamento aparentemente inadequado ou repulsivo dos outros - nunca o seu próprio, é claro. Tomados da nossa presunção de pureza, apontamos sem medo o dedo para a suposta imundície dos outros, como se uma foto resumisse todos os argumentos, como se o momento fosse a totalidade da existência, como se a nós coubesse o papel de guardião e carrasco de quem quer que seja.

A intenção era boa, a luta contra o racismo é nobre e urgente? Pois lembro que é possível cometer a infâmia desejando a bondade, que qualquer um pode jogar a desgraça sobre aqueles que deseja amar e proteger - basta agir de forma irrefletida, acompanhando a manada, sem enxergar o humano que existe em nosso momentâneo antagonista. Assim agiram os que lincharam (sim, lincharam) a família que vestiu seu filho com as roupas de Abu: movidos talvez por boas intenções, mas apenas pavimentando com elas o caminho do inferno de algumas pessoas que não conhecem, que jamais viram e que a quem não deram sequer a consideração de uma defesa. Que alguma lição saia desse episódio lamentável.  

Imagem: Divulgação / Disney

A família vestida de Aladdin sofreu linchamento virtual. Lidem com isso

igornatusch
há 2 anos4 visualizações

Em tempos duros como os que vivemos, onde a ação antecede a reflexão e todo mundo parece contaminado pela vontade de ser o justiceiro da vez, um caso como o da família que se fantasiou de personagens do desenho Aladdin é tristemente simbólico. Não acho correto dar grandes detalhes do acontecido, muito menos reproduzir uma vez mais a foto que gerou toda a celeuma, mas tentemos explicar o que houve para quem (afortunadamente) nada sabia do caso até então. Um casal (nada caucasiano, mas também não imediatamente relacionável com a etnia negra), com seu filho adotivo (negro), participou de uma festa carnavalesca vestindo roupas aludindo ao desenho da Disney. O menino usava trajes do personagem Abu, que é o melhor amigo de Aladdin e, como sabemos, um macaquinho. Foi suficiente para que uma foto da família viralizasse, com multidões que acreditavam estar denunciando o que consideraram racismo na imagem. O pai veio a público rebater a acusação, dizendo que queria retratar a amizade entre Aladdin e Abu e que o racismo estava nos olhos de quem via - insuficiente, é claro, para aplacar a sanha de justiça de quem promove linchamento pelas redes sociais.

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A família vestida de Aladdin sofreu linchamento virtual. Lidem com isso

Sim, usei a palavra e a repetirei: linchamento. O que todas as pessoas que divulgaram a foto (a maioria sem sequer tomar o cuidado de disfarçar digitalmente o rosto da criança) promoveram foi um linchamento virtual, onde a família foi condenada por racismo sem nenhum direito a defesa, sem qualquer chance ou tentativa de compreensão, de forma impiedosa e cruel. Assim agiram a partir de um arremedo de argumento, dizendo que era necessário proteger a criança de uma situação vexatória - e para salvá-la do horror a expuseram a um horror maior ainda, espalhando para todos os lados a sua imagem, potencializando a possível vergonha e colocando em risco a estrutura familiar que essa criança (vinda, lembremos, de um orfanato) começa a construir. Que benefício trouxeram ao menino vestido de Abu as multidões que ousam dizer que tentaram protegê-lo, mas só o atingiram ainda mais - e que acusam simploriamente de racismo também aqueles que ousam discordar do modo como tudo foi conduzido?

Dirão alguns que racismo é algo odioso e deve ser condenado sem trégua, sem rodeios ou ponderações. Não percebem, esses que se julgaram portadores de uma verdade indiscutível, que usam o exato argumento dos que defendem a anulação dos direitos humanos, a condenação pelo tribunal do senso comum, a morte inclemente do suposto bandido em flagrante delito. Deve o racista ser marcado a ferro e fogo, de forma que nunca mais possa andar à rua sem que seja cuspido e humilhado por seu pecado? Se racismo cometeu essa família, devemos assumir de imediato que o fizeram com a mais pútrida das intenções, ignorando que possam ter assim agido por ignorância ou de forma desastrada? Não existe diferença entre o assassino de negros e alguém que erra reproduzindo coisas que não conseguiu (ainda) enxergar como preconceituosas? Não devemos, por acaso, agir de acordo com os tons de cinza de um assunto tão grave e tão disseminado mesmo nos mais diminutos gestos de nossa sociedade? É isso que desejamos - pular todas as etapas de discussão e passar direto para a fogueira, tochas em punho, transformando o Facebook em nossa Salem coletiva? Não será esse desespero justiceiro uma forma de calar, com ânsia e severidade, o traço do criminoso que enxergamos em nós mesmos?

Quem compartilha imagem de um suposto criminoso nas redes é um irresponsável, que pode estar cometendo uma brutal injustiça e até ajudando um ato criminoso e trágico contra o denunciado. Aconteceu agora mesmo no RS, com multidões compartilhando a foto do suposto estuprador de uma criança de 5 anos - foto, obviamente, de alguém que nada tinha a ver com o caso. E a mesma lógica, agradável ou não, vale para quem faz "denúncias" via Twitter ou Facebook, expondo o comportamento aparentemente inadequado ou repulsivo dos outros - nunca o seu próprio, é claro. Tomados da nossa presunção de pureza, apontamos sem medo o dedo para a suposta imundície dos outros, como se uma foto resumisse todos os argumentos, como se o momento fosse a totalidade da existência, como se a nós coubesse o papel de guardião e carrasco de quem quer que seja.

A intenção era boa, a luta contra o racismo é nobre e urgente? Pois lembro que é possível cometer a infâmia desejando a bondade, que qualquer um pode jogar a desgraça sobre aqueles que deseja amar e proteger - basta agir de forma irrefletida, acompanhando a manada, sem enxergar o humano que existe em nosso momentâneo antagonista. Assim agiram os que lincharam (sim, lincharam) a família que vestiu seu filho com as roupas de Abu: movidos talvez por boas intenções, mas apenas pavimentando com elas o caminho do inferno de algumas pessoas que não conhecem, que jamais viram e que a quem não deram sequer a consideração de uma defesa. Que alguma lição saia desse episódio lamentável.  

Imagem: Divulgação / Disney

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