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A operação Lava Jato, o japonês da Federal, o Brasil do Carnaval e você

Gabriel Toueg
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Gabriel Toueg

Estando fora do Brasil, acompanho as notícias pela (decadente) imprensa brasileira e, para me divertir, pelo Facebook. Lembro de ter lido uma vez que em viagens vale a pena sentar em um banco de esquina e observar as pessoas para entender um pouco sobre a sociedade local — faço isso do meu computador, olhando pelo Facebook o comportamento dos “amigos”.

E o que vejo não me deixa feliz.

É Carnaval, putaria e o pacote completo. No meu feed do Facebook, aparece uma foto que um amigo compartilhou: ele ao lado de um sujeito fantasiado de japonês da Federal, aquele que ficou famoso (e virou meme) por conduzir os detidos da operação Lava Jato, algemas nas mãos, para fora de suas casas, diante de câmeras da nossa (decadente) imprensa.

Comentei então com a minha esposa e ela me contou que o cara tinha sido preso por corrupção. Não meu amigo: o japonês da Federal! Fui pesquisar e é isso mesmo. O cara é alvo de processos, já foi afastado da PF e voltou, por algum motivo que só um país que tem a corrupção em seu DNA, como o Brasil, pode explicar. É notícia velha, eu sei, mas eu não sabia. Se você sabia e deixou passar, mandou mal.

Fiquei então pensando na foto do meu amigo. Será que ele sabe quem é o japonês da Federal? Será que ele sabe que, como aqueles rostos conhecidos que foram conduzidos para fora de casa pelo cara, ele também foi preso por corrupção? Lembrei das piadas — “Se você é um político corrupto e baterem na sua porta às 6h da manhã e for um japonês, você está f…”, coisas do tipo.

O japonês da Federal virou herói — herói em um país que transforma em herói quem faz o que deve fazer, nada além da pura obrigação. Lembrei de uma história que ganhou espaço em noticiários de TV: uma mulher tinha encontrado o carro dela amassado e — surpresa! — um bilhete em que alguém assumia a responsabilidade, deixando os dados para contato. Uau! Isso não é ser herói! Isso é agir com um mínimo de bom senso, de sentido de comunidade, de fazer o que é certo — mas na reportagem, ele virou herói.

Se você acha que o japonês da Federal é herói, repense. Levar político corrupto preso é a função dele, o mínimo que deve fazer. Não merece aplausos nem prêmios. Sendo ele corrupto e tendo sido preso e afastado da polícia por isso, muito menos. Mas somos o país em que o ano só começa depois do Carnaval e da putaria, do “rouba, mas faz” e da corrupção, do jeitinho e do “tudo é permitido desde que sobre uma cerveja para mim no final”. Somos o país da vergonha. Da pizza no final.

Dá uma tristeza…