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Death Note da Netflix é uma aula de como (não) adaptar um anime

GameStoria
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Death Note da Netflix é uma aula de como (não) adaptar um anime

Admito que estava um pouco ansioso para assistir à adaptação de Death Note, um dos melhores mangás/animes da década passada, que a Netflix vinha produzindo e, finalmente, ficou disponível para ser assistido nesta sexta-feira (25).

O mais engraçado é pensar que essa ansiedade ignorou alguns sinais bem claros de que o filme seria uma bomba. Desde a escolha ocidentalizada do elenco, passando pela localização da trama (em Seattle, nos Estados Unidos, e não no Japão) até chegarmos nas críticas nada favoráveis publicadas Internet afora nas primeiras horas após o filme estrear na Netflix, tudo indicava que o longa seria uma bela forma de passar 1h40 se decepcionando continuamente. 

"Ah, mas Death Note é tão bom, não tem como uma adaptação ser muito ruim, não é mesmo?", eu insistia em pensar. 

Bem, bastou assistir a 12 minutos do filme para perceber que eu errei feio, errei rude em ter qualquer tipo de esperança. Não é que Death Note seja um filme ruim para quem assistiu ao anime ou leu o mangá, público (no qual me incluo e, pelo visto, o diretor Adam Wingard, não) que julgaria a produção com um rigor acima da média. 

Ele é um filme péssimo para qualquer pessoa que tenha olhos, ouvidos e cérebros minimamente funcionais. E, se você gostou do mangá e do anime, tenho más notícias: a decepção tende a se transformar em raiva até mesmo antes dos 12 minutos que eu escrevi no parágrafo anterior.

Se "close errado" tivesse uma definição oficial em dicionários, certamente "o filme do Death Note da Netflix" estaria na descrição do verbete.

Tudo errado

Na obra original, o protagonista Light Yagami é um caso raro de estudante que é extremamente capaz dentro e fora da sala de aula. Um fenômeno, um gênio, o gostosão que pode pegar geral, o craque nos esportes... chame como quiser. Ele é o cara invejado, aquele que não tem como dar errado na vida e a parte mais bacana do desenrolar da história é a transformação do garoto exemplar em um psicopata. 

Death Note da Netflix é uma aula de como (não) adaptar um anime

Cito isso, com um tremendo cuidado para não escrever nenhum spoiler, para dizer que o senhor Light Turner (claro que mudariam o nome do personagem), interpretado por Nat Wolff, é retratado como um nerd completamente reprimido, cujo ato mais ousado antes do Death Note entrar em sua vida é vender trabalhos escolares. 

Na trama original, Light vê seu pai, Soichiro Yagami, como um herói, um exemplo. No filme, há uma clara tensão entre Light e seu pai, James Turner (Shea Whigham), em decorrência da morte de sua mãe. Pode parecer bobo, mas é um ponto que impacta no desenvolvimento do mangá e do anime por completo e torna tudo no filme mais artificial.

Há também Mia Sutton (Margaret Qualley), que passa longe de ser a Misa Amane que os fãs do mangá e anime se acostumaram a amar e odiar ao mesmo tempo. No lugar disso, entra uma garota que pode ser classificada como "sem carisma", para sermos bondosos. 

Nem mesmo o ótimo Willem Dafoe, que interpreta o shinigami (nome em japonês que indica um deus da morte, responsável por determinar como e quando os humanos morrem e, normalmente, dono do tal Death Note) Ryuk, é capaz de salvar os rumos do personagem. Se Ryuk, no mangá e no anime, possui um papel mais neutro, no filme ele quer mais é ver o circo pegar fogo e é uma espécie de diabinho que atormenta Light e o incentiva a usar cada vez mais o caderno. 

Death Note da Netflix é uma aula de como (não) adaptar um anime

Por fim, a tensão entre Light e o detetive excêntrico L (Lakeith Stanfield), que dita os rumos de praticamente todo o mangá/anime é retratada de maneira extremamente superficial e boba.

O resultado disso tudo é que toda a análise social e comportamental vista no Death Note original - o anime é extremamente adulto ao tratar de temas como o justiçamento, conta com diversas reviravoltas de enredo e traz uma evolução única de seus personagens - foi transformada em uma mistura insólita de Premonição, no quesito sangue e tripas voando, e Malhação, quando o assunto é atuação dos atores. 

Ou seja: poucas vezes a palavra "adaptação" foi interpretada de uma forma tão, digamos, livre, quanto a feita por Wingard neste filme.

Eu nunca achei que falaria isso, mas esse filme marcou um dos raros momentos nos quais a Netflix me decepcionou bastante. Tenho quase certeza que ela arranjou um caderninho bastante suspeito e escreveu o nome da obra nele - o resultado foi esse filme. 

Death Note da Netflix é uma aula de como (não) adaptar um anime

Nada, porém, que não possa ser perdoado: basta ela se negar a fazer uma sequência para o filme como o diretor Adam Wingard planeja. Afinal, pior do que um filme ruim de Death Note são dois filmes ruins de Death Note.

ps: quer um conselho? Aproveite que o anime de Death Note está na Netflix e use a 1h40 que você passaria vendo o filme assistindo a pelo menos cinco episódios da série animada. Não precisa me agradecer. :)