RAÇA

Afrodengo quer estimular a paquera entre pessoas negras

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Afrodengo quer estimular a paquera entre pessoas negras

Crédito: Alex Holyoake

Há que se imaginar que, em termos de representatividade, seria bom poder ter como referência mais casais célebres negros que apenas Taís Araújo e Lázaro Ramos - praticamente os Obama brasileiros. Obviamente, amores são livres, inclusive de prerrogativas raciais, mas a torcida por casais negros existe porque formam uma união que leva à intimidade questões raciais de uma maneira que ambos entendem e vivenciam na mesma dimensão a luta antirracista. De certa forma, os valores de identidade negra são mais sólidos numa dinâmica em que todo mundo é preto.

Isso não quer dizer que se enxergue qualquer problema em relações interraciais, que fazem parte da cultura brasileira de miscigenação. Mas, as consequências sociais resvalam inclusive na realidade que é a solidão da mulher negra, comumente preterida por mulheres claras quando homens (brancos e negros) estabelecem relacionamentos sérios. Por essas e outras, algumas vertentes de movimentos negros estimulam o “amor afrocentrado”, o encontro afetivo em que pessoas negras se reconheçam como sujeitos atraentes em sua beleza plena, não relegadas aos espaços marginais de relações que fetichizam corpos negros.

Pessoas negras são ressabiadas em relação à rejeição. A blogueira Gabi Oliveira, do canal Papo DePretas, explicou um pouco sobre o receio ao uso de apps como o tinder em um vídeo que reúne alguns depoimentos a respeito.

Pensando em reunir “gente bonita e clima de paquera” surgiu em janeiro o grupo (fechado) no Facebook chamado Afrodengo. A ideia encabeçada pela jornalista baiana Lorena Ifé partiu da percepção da ausência de público negro nos aplicativos de paquera. O espaço de flerte virtual estimula a interação e construção de relações saudáveis, ou saídas casuais com o intuito de fortalecer a afetividade negra. O ambiente de diálogo sobre a importância do amor para população preta em todas as suas nuances reúne quase 40 mil pessoas. Para ser admitido no grupo, é preciso ser aceito pela moderação depois de enviar uma apresentação breve.

“Quem não gosta de um dengo? Palavra que vem da língua Kikongo, de origem africana (norte da Angola) que significa “carinho”, “agrado”. Tão presente no linguajar da população negra e no vocabulário brasileiro, expressa nossa forma de amar, dar colo, fazer um cafuné, um abraço, dar amor. Paquerem, se amem, combinem, se beijem, se abracem, deem dengo, transem, pratiquem a sarrada e o negro amor em sua máxima essência, para além do mundo virtual”, diz o texto sobre o Afrodengo que almeja futuramente evoluir para um aplicativo e uma plataforma virtual sobre afetividade negra, além de promover eventos presenciais, o que já acontece em Salvador.