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Blackface em exposição de Alexandra Loras? Por que não.

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Blackface em exposição de Alexandra Loras? Por que não.

Reprodução / G1

E lá vamos nós misturar fogo e pólvora para falar de racismo e exposição de arte em tempos os debates estão sempre extremados, longe de diálogos. Trata-se da “polêmica” (expressão que já anda tendo um uso bastante senso comum para designar qualquer coisa que aumenta o fluxo de comentários das redes sociais) exposição artística da jornalista e ex-consulesa da França em São Paulo, Alexandra Loras, chamada "Pourquoi pas?" (Por que não? em português).

A mostra, que se pretende como uma expressão justamente de combate ao racismo, apresenta 20 retratos de personalidades brancas que tiveram seus tons pele escurecidos por meio de manipulação digital e ganharam traços afrodescendentes, entre elas Donald Trump, Rainha Elizabeth, William Waack, Marilyn Monroe, Silvio Santos, João Doria, Dilma Rousseff, Temer Golpista, Geraldo Alckmin, Ana Maria Braga, Fátima Bernardes, Xuxa e Gisele Bündchen, sob a curadoria do grafiteiro paulistano Enivo. Basicamente é isso, branco pintado como negro, e portanto, não deixa de ser o uso de tática questionável para retratar pessoas negras, o blackface.

Para tentar justificar o uso da imagem pitoresca para uma identidade fake, repleta de estereótipos, o texto de Loras sobre a exposição argumenta: “Nesse mundo "invertido", eu proponho, com uma dose de humor e ironia, uma reflexão mais profunda sobre o protagonismo do negro na história”, introduz. Segue ainda dizendo: ““Meu objetivo é provocar uma experiência de empatia profunda nas pessoas mostrando celebridades e políticos brancos no país com a segunda maior população negra do planeta e onde essa maioria é tratada como minoria. Apresento essa realidade invertida para provar o quanto estamos longe de uma democracia racial, que só existirá de fato quando tivermos 54% da população negra do Brasil no Congresso, na mídia, nos boards executivos, ocupando cargos de liderança”.

De fato, é preciso chamar atenção sobre a falta de representatividade de negros em posições de destaque. Também é importante ações que provoquem reflexões a respeito das estruturas do racismo institucional, mas usar o blackface é um um recurso pobre e superficial para tratar de embates tão profundos.

Num país em que a maior atriz negra da atualidade é enxovalhada por autoridades como secretário de educação, que uma senadora negra num raro espaço de representatividade afro no cenário político é chamada de “tia do café” por um “humorista” e nada acontece, será mesmo que dá pra falar de racismo usando humor e ironia - os elementos mais arraigados da nossa cultura racista? Na terra do “não sou racista” mas… (inclua aqui uma velha piada sobre negros que lhe apetecer)? Desculpa, Alexandra, mas infelizmente por aqui, preto não gera empatia, nem os mais famosos, não adianta nos pintar de aceitação. O buraco é mais embaixo.

E se ao invés de destacar nomes exaustivamente já privilegiados e tentá-los associá-los a uma negritude caricata houvesse uma exposição de retratação a todos os negros que foram “embranquecidos” ao longo da história e quase ninguém tem conhecimento das suas origens como Lima Barreto, tachado como branco para circular entre a elite aristocrática, ou Chiquinha Gonzaga, pianista e compositora negra sempre representada como branca?

Antes de tudo, tento ter empatia e compreender o lugar de desconexão pelo olhar estrangeiro de Loras, que pode desconhecer talvez de forma até pueril as especificidades do racismo no Brasil. Ela é uma das mulheres admiráveis que estão à frente em espaços midiáticos puxando o debate sobre feminismo negro para espaços onde só havia silenciamento. Por isso é tão lamentável escorregar numa perspectiva limitante e desastrosamente arquetípica para questionar a sutileza do racismo brasileiro, que de suave já não tem nada. Deixa aos poucos de ser escamoteado para diariamente mostrar os dentes da sua ira.

É um momento mais profícuo para tirar esqueletos do armário, para enfrentamento e exposição das violências, não do gracejo. Nessa zona de conforto do sorriso amarelo em meio ao mito da democracia racial, passamos muito tempo, pouco refletimos. A fratura mais exposta, que mostra que não tem mais graça, é de que precisamos. Esse é o único preto no branco que pode incomodar.