NOTÍCIAS

Colocar a mãe no meio não salva a H&M de seu racismo

Autor
Colocar a mãe no meio não salva a H&M de seu racismo

Reprodução / H&M

Chegamos a 2018 e ainda nos vemos obrigados a discutir - sim, o debate existe porque impressionantemente ainda há quem refute - casos escandalosos de publicidade racista como o da H&M. A gigante varejista, sueca de origem mas global de mercado, deve acreditar no fantástico mundo da Disney para considerar “ok” colocar um menino negro vestido com um moletom escrito “o macaco mais legal da selva” na sua nova coleção infantil.

Alguém explica em que parte do mundo em que vemos por exemplo no futebol de elite europeu (ali pertinho da Suécia) torcidas entoando gritos de primatas e atirando bananas direcionados a atletas negros como a mais explícita expressão de racismo seria possível associar a imagem de uma pessoa de pele escura ao símbolo do macaco?

De lá pra cá o roteiro seguiu aquele roteiro que já conhecemos, a marca se desculpa publicamente, diz que não houve intenção e faz uma ressalva a “quem por acaso possa ter se sentido ofendido”, retira as peças de marketing de exposição e neste caso também promete não vender mais o produto - apenas para o mercado norte-americano, o mais sensível a essa coisa chamada racismo.

Como última cartada da mea culpa, marcas envolvidas em casos de racismo tentam dar voz ao personagem oprimido em questão, sem respondendo que não viu problema em participar do polêmico projeto. Aconteceu no caso da Dove, em que a modelo negra envolvida na campanha fez um depoimento para o The Guardian dizendo que não imaginava ao longo do processo que a campanha que parecia sobre diversidade pudesse ganhar um tom racista.

No caso da H&M, um tanto mais explícita que a subjetividade de passar de negra para branca na propaganda de sabonete, restou tentar defender o indefensável: o menino negro macaco. Para tanto, a mãe do garotinho rompeu o silêncio e “espontaneamente” se manifestou nas redes sociais. "Sou a mãe e esta é uma das centenas de roupas com que meu filho modelou. Parem de choramingar o tempo todo, é um caso desnecessário esse. Superem", expressou Terry Mango ao responder às críticas de usuários do Facebook à marca.

Sabemos que o fato de um indivíduo em situação de pertencimento a um grupo que sofre discriminação e desigualdade não pode ser tido como correlato à demanda coletiva de determinada comunidade. Do mesmo jeito que existem mulheres que reafirmam machismo, como o caso de Catherine Deneuve e Danuza Leão se manifestando equivocadamente em relação ao abusos sexuais em Hollywood.

Portanto, trazer a mãe do menino para a briga, com o lugar de fala de mulher negra que não se incomoda, não foi suficiente para conter a indignação coletiva. Neste sábado, protestos na África do Sul deixaram lojas da H&M depredadas, e a marca decidiu fechar temporariamente seus estabelecimentos no país até segunda ordem. Não dá pra conter a fúria em relação ao racismo fazendo gestão de crise meia boca. A marca vai se ver obrigada a se adaptar aos novos tempos tão “chatos” do politicamente aceitável ou terá cada vez mais prejuízos, e não só financeiros.