CRIANÇAS

Crianças não aprendem preconceitos sozinhas

Geisa Agricio
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Geisa Agricio
Crianças não aprendem preconceitos sozinhas

Crédito: Aaron Burden

Nós, mães e pais, costumamos ter uma crença pueril de que simplesmente ao transmitir nossos valores para nossos filhos, eles estarão de alguma forma blindados aos pensamentos obscurantistas do mundo lá fora. Como negra e feminista, obviamente coloco muita fé que meu filho quando adulto não reproduza opressões de gênero e (auto)preconceitos de raça.

Porém, se estivermos lhes favorecendo um crescimento minimamente saudável em sociedade, eles não viverão numa bolha, e estarão naturalmente expostos a influências para além do que a gente concorda. E como bob esponjas, se a gente não estiver alerta, acabam reproduzindo pensamentos refutáveis ou mesmo estigmas preconceituosos.

Um vídeo publicado há três dias e que já teve mais de 3,5 milhões de visualizações nos faz pensar que não dá pra jogar a toalha e aceitar que crianças repliquem ideias discriminatórias. No vídeo da página Estaremos Lá, uma mulher cria um diálogo empático para se comunicar com seu sobrinho e lhe fazer refletir porque ele considera que “baiano é engraçado e fala estranho” e que pessoas normais são as de São Paulo. É triste a percepção de como é possível que o oprimido reverbere alguma outra forma de opressão. O menino negro de periferia fazendo piada de nordestino.

Mas ao fim, depois da conversa didática, ele acaba compreendendo e mandando um recado alegre para a Bahia. É uma boa tática, a narrativa que, ao invés de acusar a criança, criar um território seguro para que ela consiga se expressar e contar de onde vieram essas ideias. E ainda mais positivo o acolhimento para poder persuadir que aquela ideia não se sustenta em argumentos. É uma aula de comunicação não violenta e de tolerância, vale cada compartilhamento.

Ainda seria bom explicar aos pequenos não apenas que o estigma de “baiano” não sobrecai apenas sobre as pessoas que nasceram no estado da Bahia mas toda a comunidade nordestina, assim como a representação de Nordeste para os cariocas é “paraíba”.