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Depois da Dove, Nivea acusada de racismo por produto que clareia a pele

Geisa Agricio
Autor
Geisa Agricio
Depois da Dove, Nivea acusada de racismo por produto que clareia a pele

Reprodução / Daily Mail

A indústria da beleza tem papel fundamental nos ditames de padrões cultuados como referenciais. O mercado se posiciona numa eterna valsa, entre oferta e demanda, sempre se conduzindo para lucrar mais. Se, por um lado, é bastante conveniente que se aproprie de mudanças de comportamento e do clamor popular para diversificar suas vendas, por outro também continua sendo uma estratégia profícua criar produtos que suscitam desejos por resultados impossíveis e antinaturais, que levam milhares de pessoas, principalmente mulheres, a gastarem rios de dinheiro com a insatisfação com seus corpos.

Se de alguma forma o black money (dinheiro negro) exigiu que a indústria passasse a criar cosméticos específicos para pessoas negras, a exemplo de itens de maquiagem ou cremes e tratamentos para cabelos crespos, também vimos nas últimas décadas multiplicarem-se nas prateleiras de supermercados e farmácias artigos para combater combater coisas simples da nossa natureza mortal: pêlos, celulites, rugas, flacidez, olor íntimo, etc. Tudo que puder contribuir para que cada dia tentemos ser mais parecidas com bonecas que mulheres reais, possivelmente já foi inventado. Mas ao que parece, não existe limite. Tudo aparenta ser válido no mundo do livre mercado: se tem quem venda, tem quem compre.

Mas nesse tal mundo globalizado, marcas propagam valores, além de simplesmente vender seus produtos. Quase todas tentam pegar carona na onda empoderada da beleza realista que já tem pelo menos uma década de surgimento. E vemos campanhas de diversidade nos mais variados casos, alguns apropriados, outros equivocados como o da Dove. Mas como, em tempos de vozes afirmativas e revolução crespa, a Nivea achou que daria pra escapar ilesa ao polêmico lançamento de um creme para clarear a pele?

Não estamos falando de 30 anos atrás, quando Michael Jackson passou por um processo de enbranquecimento (que além do tratamento de vitiligo envolvia ainda cirurgias para afilar seus traços e alisamento dos cabelos) o mundo o venerou assim mesmo. Nem estamos no anos 90, auge da ditadura da chapinha e das escovas inteligentes (?). Estamos caminhando para a liberdade da autoaceitação, é uníssono. E isso em questões raciais é ainda mais latente, um processo coletivo de afirmação e identidade. No Brasil, à medida que crescem o número de pessoas autodeclaradas negras (não mais pardas), também aumenta a quantidade de pessoas interessadas em transição capilar (que se configura como um retorno à fibra natural dos cabelos depois de intervenções químicas).

Não tem como escapar da pecha de “racista” uma marca de “beleza” que acha que está tudo bem que mulheres negras continuem se odiando e se achando menos bonitas, já que para isso ela traz uma “ótima” solução: um produto para sua pele ficar mais clara e você ao se olhar no espelho não se sentir “tão negra” assim, pode ser menos. Se o Whitewashing já não é admissível sem críticas nem em Hollywood, o que dizer na vida de pessoas reais? Não deu outra, a Nivea está vivendo um tsunami de críticas pelo anúncio do produto com o vídeo estrelado pela Miss Nigeria, Omowunmi Akinnifesi. Enquanto ela aplica o creme, sua pele vai clareando e ainda aparece o slogan “visibly lighter” (visivelmente mais clara).

Segundo o portal britânico Daily Mail, o comercial foi lançado para os públicos de países da África como Nigéria, Gana, Camarões e Senegal. Mas o barulho ecoou no mundo todo e milhares de tweets pedem o boicote generalizado a qualquer tipo de produto Nivea, movimento endossado por personalidades do Reino Unido, como o empreendedor londrino William Adoasi que tuitou: “É por isso que os negócios negros precisam se levantar e atender às nossas próprias necessidades. Nivea não vai se safar forçando essa demanda de clareamento de pele em toda a África. Apavorante”.

Fica a pergunta, se mesmo com essas bolas foras de gigantes como Nivea e Dove, com as crises e desgastes nas redes sociais, quão profundamente afeta os negócios e seus rendimentos serem associadas ao Racismo. O impacto negativo é realmente profundo? Ou vale quebrar uns ovos pra obter a omelete num mercado ascendente como o africano ao custo do sofrimento e da autoestima de mulheres negras?