MÚSICA

DJ Dolores mostra um lado de Reginaldo Rossi que quase ninguém conhece

Yazar
DJ Dolores mostra um lado de Reginaldo Rossi que quase ninguém conhece

Reprodução / Youtube

O império do Brega, também conhecido como Recife, só tem um rei. Reginaldo Rossi, principal nome da cultura popular pernambucana, em popularidade é mítica comparável apenas ao monarca de outro trono, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Agora o público tem a oportunidade de conhecer mais profundamente o universo da personalidade e da obra do artista falecido em 2013 com o lançamento do documentário Reginaldo Rossi - Meu Grande Amor, exibido na TV Globo no último domingo e disponível online no Globo Play. A produção da R-TV e Globo Filmes é dirigida por José Eduardo Miglioli e tem o roteiro assinado por DJ Dolores, músico e produtor reconhecido por sua trajetória no cinema.

O filme traz algumas pérolas como trechos de uma entrevista inédita concedida em 2008 ao jornalista Xico Sá e ao cineasta Paulo Caldas e depoimentos da nova geração que se inspira em Rossi com nomes como Marcelo D2, Gaby Amarantos, Lúcio Maia, da Nação Zumbi, e Otto. Mas uma história significativa de um lado de Rossi que quase ninguém conhece acabou ficando de fora e foi compartilhada pelo roteirista DJ Dolores no seu perfil do Facebook.

Reginaldo Rossi transparecia apenas o lado alegre e fanfarrão, ébrio e romântico da sua personalidade, fazia pilhéria de quase tudo, mas lidava com ironia para tratar de temas amargos como reflexões sociais, valorização do povo e crítica ao preconceito. Mas DJ Dolores revelou que o rei do brega também viveu as angústias da falta de reconhecimento e de sucessivas rejeições na vida e na carreira.

“Rossi era uma pessoa bastante complexa, inventou um personagem para si, talvez para superar as grandes rejeições que sofreu desde o nascimento. Sua mãe não pôde criá-lo, as pessoas que o abrigaram morreram sucessivamente; na gravadora, fazia parte do time dos negros e pardos que, mesmo vendendo horrores ‘não tinha coquetel’, eram discriminados pela aparência e origem humilde”, conta em trecho DJ Dolores.

E ainda narrou a história que envolve a composição Um romance que ninguém leu foi escrita quando Reginaldo Rossi, demitido da gravadora, estava em São Paulo, triste e sem esperança voltando para casa de ônibus. A história da canção foi contada apenas ao guitarrista Chimbinha, muito amigo do cantor. A música que Rossi quase nunca executava nos shows é cantada por Gaby Amarantos no filme. "Ela mesma, mulher, negra, crescida na periferia de Belém, artista da música popular - percebeu o conteúdo significativo do tema, algo entre o rancor, o sentimento de injustiça e a reivindicação de protagonismo nesse mundo velho e surrado", conta ainda o texto de DJ Dolores.

“Sim, você disse que eu / Em relação a você / Sou uma fonte que já secou /Um perfume que não cheirou / Um romance que ninguém leu / Uma chuva que não molhou / A semente que não nasceu” - Trecho da música Um romance que ninguém leu

Leia a íntegra do texto de DJ Dolores:

"Agora que o Reginaldo Rock estreou na TV, vou contar algo que, infelizmente, não entrou na edição final.

Rossi era uma pessoa bastante complexa, inventou um personagem para si, talvez para superar as grandes rejeições que sofreu desde o nascimento. Sua mãe não pode cria-lo, as pessoas que o abrigaram morreram sucessivamente; na gravadora, fazia parte do time dos negros e pardos que, mesmo vendendo horrores "não tinha coquetel", eram discriminados pela aparência e origem humilde.

Durante sua entrevista, a querida Gabi Amarantos cantou espontaneamente o que seria sua música favorita do Rei: "Um romance que ninguem leu", tema que não está entre seus maiores sucessos e, segundo o próprio, a única canção que escreveu sobre si. Gabi - ela mesma, mulher, negra, crescida na periferia de Belém, artista da música popular - percebeu o conteúdo significativo do tema, algo entre o rancor, o sentimento de injustiça e a reivindicação de protagonismo nesse mundo velho e surrado. Talvez por mexer com velhos fantasmas, ele quase nunca a cantava. Definitivamente, não combinava com seu personagem, sempre vitorioso e de bem com a vida. Na entrevista inédita que tivemos acesso, ele diz, com alguma dose de desprezo, tê-la composto enquanto cagava num banheiro de alguma cidade no interior do Amapá.

Para fazer o roteiro, conversei com muitas pessoas e uma delas foi o guitarrista Chimbinha, que tornou-se próximo de Rossi ao se mudar para o Recife. Ele conta que uma noite, já depois de muitos uísques, Rossi descreveu o momento exato em que compôs "Um romance que ninguém leu". Havia sido demitido da gravadora, estava em São Paulo, triste e sem esperança. Voltou para casa de ônibus e foi durante o percurso que lhe veio a letra da música.

O Rossi pós Sony, o Rossi da década de 90, Rei do Brega, jamais admitiria tal infortúnio mas Gabi entendeu muito bem o quanto aquela canção era uma espécie de hino das pessoas que não pertencem as castas que dominam o país e isso extrapola questões meramente estéticas.

Tentamos muito entrevistar Chimbinha para que ele repetisse o que me falou ao telefone mas, por uma série de desencontros, não conseguimos."