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#ÉCoisaDeBranco tentar relativizar o racismo

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#ÉCoisaDeBranco tentar relativizar o racismo

Reprodução / Twitter

Ainda reverbera nas redes sociais o impacto do infeliz comentário racista do jornalista William Waack, afastado do comando do Jornal da Globo depois de ser flagrado em vídeo insinuando que fazer besteira “é coisa de preto”. Internautas reagiram com a hashtag #ÉCoisaDePreto como uma ação afirmativa de identidade negra, ressaltando talentos negros e personalidades históricas de diversas áreas.

Mas o debate sobre racismo foi apimentado mesmo a partir da sexta-feira (10) com a viralização de uma outra hashtag ainda mais provocativa em resposta a Waack. O movimento em torno do #ÉCoisaDeBranco ganhou corpo principalmente depois que alguns outros jornalistas conservadores tentaram defender o indefensável e se solidarizar com Waack, a exemplo de Rachel Sheherazade, Reinaldo Azevedo e Augusto Nunes.

A ex-bbb Ana Paula Renault foi direito ao assunto:

Relativizar o necessário combate ao racismo associando a uma ideologia política e colocar direitos humanos fundamentais como uma questão “de esquerda”, e as denúncias de “hipocrisia”, é uma estratégia para esvaziar a dimensão do problema. A cortina de fumaça para mudar o foco sobre Waak, e seu pedido de desculpa questionável ao afirmar que não se lembrava do que havia dito, conseguiu ainda fazer uma caça às bruxas, ou neste caso, ao responsáveis pelo vazamento do vídeo, ex-funcionários negros da Globo que denunciaram o fato a empresa e não viram nenhuma coerção ao racismo internamente.

A discussão sobre como as pessoas racistas encontram escapatórias argumentativas para fingir que o racismo é coisa da nossa cabeça deu gancho para o #ÉCoisaDeBranco, e acompanhar tanto as denúncias quanto as tentativas de defesa que esbarram até na lenda do “racismo reverso” tem sido um exercício de entender o debate superficial que um problema estruturante ainda tem no Brasil.

Danilo Gentili, famoso pelo escárnio com questões raciais, foi relembrado pela blogueira feminista Lola Aronovich

A feminista negra Stephanie Ribeiro foi uma das pessoas que se pronunciou a respeito:

É tão raro e um grande privilégio branco - por ser considerado em seu lugar de protagonismo - não ser visto e julgado pela sua subjetividade individual ou pela sua essência única, que o furor da reação a hashtag demonstra como pessoas brancas não estão acostumadas a serem racializadas, lidas em coletividade como um grupo específico (não o universal que designa o que é o ser humano). 

Nessa hora, parece ter muito sentido afirmar veementemente que as pessoas não devem ser julgadas pela cor da sua pele, nem a besteira de um significa o comportamento de toda uma raça. Mas porque quando nós negros reclamamos da forma como somos tratados, coletivamente, como um grupo social menor, parece factível tratar como um exagero nosso ou vitimização?