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Festival Janela de Cinema traz mostra inédita de diretores afro-americanos

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Festival Janela de Cinema traz mostra inédita de diretores afro-americanos

Cena do filme Filhas do pó, de Julie Dash

Quem ama o lançamento pop Lemonade, de Beyoncé, e o considera um marco impactante de expressão audiovisual para a representatividade de uma artista negra, mal sabe que o cultuado video álbum bebe diretamente na fonte chamada Julie Dash, a primeira diretora negra a ter um filme em circuito comercial nos EUA, "Filhas do Pó" (Daughters of the dust, 1993).

O trabalho icônico de Dash, restaurado em cópia DCP, além de um curta-metragem de sua autoria, será exibido no Brasil, numa mostra inédita que reúne produções do L.A. Rebellion, grupo de realizadoras e realizadores negros egressos da Escola de Cinema da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), nos anos 1970 e 1980. A seleção de 16 filmes desse profícuo movimento integra a programação do festival Janela Internacional de Cinema do Recife, que acontece na capital pernambucana entre os dias 3 e 12 de novembro.

A programação tem ainda a presença valiosa de obras de Charles Burnett, que em 2018 receberá Oscar honorário. A mostra exibe dois curtas-metragens e dois longas, entre eles o clássico "O Matador de Ovelhas" ("Killer of Sheep", 1978). Títulos mais raros também ganham sessões como "Assim na Terra Como no Céu" (de Larry Clark, cineasta e professor da San Francisco State University, não o homônimo fotógrafo e cineasta), de 1973, e "Bush Mama" (do realizador de origem etíope Haile Gerima), de 1979.

Trailer de "O Matador de Ovelhas"

O arrojo político e estético da produção que pela primeira é compilada numa mostra temática no Brasil levou o L.A. Rebellion a ser considerado uma espécie de Cinema Novo negro, e desafiou a indústria hollywoodiana que teve de se deparar com a voz de criadores sempre em coadjuvação.

Há que ser celebrado o espaço dado para a criação de autores negros (não apenas na atuação) num festival tão relevante como o Janela, já que a invisibilidade dentro da cadeia das superproduções também é um fato entre realizadores brasileiros. É uma boa resposta ao clamor por um debate mais profundo sobre representatividade e à necessidade de provocações a respeito de lugar de fala no momento recente da história do cinema refletido em festivais. Afinal de contas, o Festival de Brasília deste ano já mostrou que o terreno ainda é árduo e desértico para diretores negros. Mas não dá mais pra se esquivar do enfrentamento.

Além da exibição dos filmes, o Janela promete uma série de debates sobre a produção de cinema por realizadores negros, tanto no L.A. Rebellion e no Brasil contemporâneo. Seria bom começar o processo discutindo porque uma mostra tão relevante para o cinema negro não teve também a curadoria assinada por pessoas negras?

Lista de filmes da mostra L.A. Rebellion: Um Novo Cinema Negro:

Longas

As above, so below / Assim na terra como no céu (Larry Clark, 1973, 52′, 16mm)

Ashes and embers / Cinzas e brasas (Haile Gerima, 1982, 129′, DCP)

Bush Mama (Haile Gerima, 1979, 97′, 16mm)

Daughters of the dust / Filhas do pó (Julie Dash, 1993, 113′, DCP)

Killer of sheep / O matador de ovelhas (Charles Burnett, 1978, 83′, DCP)

My brother’s wedding / O casamento do meu irmão (Charles Burnett, 115′, 1983, DCP)

Passing through / Dando um rolê (Larry Clark, 1977, 105′, DCP)

Curtas

Child of Resistance / Filha da resistência (Haile Gerima, 1972, 36′, 16mm)

Cycles / Ciclos (Zeinabu irene Davis, 1989, 17′, Digibeta)

Diary of an African Nun / Diário de uma freira africana (Julie Dash, 1977, 15′, Digibeta)

Illusions / Ilusões (Julie Dash, 1982, 36′, DCP)

Medea / Medeia (Ben Caldwell, 1974, 7′, Digibeta)

Rain / Chuva (Melvonna Ballenger, 1978, 15′, Digibeta)

Several Friends / Um bocado de amigos (Charles Burnett, 1969, 22′, DCP)

The Horse / O cavalo (Charles Burnett, 1973, 14′, DCP)

Ujamii Uhuru Schule / Community Freedom School / Escola da Liberdade da Comunidade (Don Amis, 1974, 9′, Digibeta)