RAÇA

Homens Brancos ainda dominam o cinema nacional

Geisa Agricio
Autor
Geisa Agricio

Homens Brancos ainda dominam o cinema nacional

Reprodução / Ancine

Zero. É o número de mulheres negras que dirigiram ou roteirizaram algum filme nacional do circuito comercial em 2016, segundo dados apresentados pela Ancine (Agência Nacional do Cinema) na pesquisa Diversidade de Gênero e Raça. Foram analisados 142 longas-metragens brasileiros lançados comercialmente em salas de exibição no ano de 2016, de acordo com o Sadis (Sistema de Acompanhamento da Distribuição em Salas de Exibição), em que cada filme teve as funções de Direção, Roteiro, Produção Executiva e Elenco classificadas quanto a identidade de gênero e raça/cor. As funções de Direção de Fotografia e Direção de Arte tiveram classificação quanto a identidade de gênero, exclusivamente.

De acordo com a pesquisa, 59,9% dos roteiros foram assinados por homens brancos, 16,2% por mulheres brancas, apenas 2,1% por homens negros e, nenhum filme foi escrito por uma mulher negra. Na direção, a desigualdade se agrava, com 75,4% dos filmes dirigidos por homens brancos, 19,7% por mulheres brancas, apenas 2,1% por homens negros. E nenhum título sequer com uma mulher negra.

Isso é retrato potente para mostrar que, apesar dos financiamentos públicos, os filmes que chegam às salas de cinema, ou seja, os que realmente chegam ao público além no restrito universo dos festivais, são predominantemente construídos por narrativas estabelecidas por homens brancos. E, consequentemente, isso reflete numa falta de diversidade étnica e feminina nas histórias que vemos na tela, mesmo num país de maioria negra.

A pesquisa inédita serve como base para repensar os recursos de fomento e distribuição das políticas públicas de audiovisual do País, que em pouco tangem questões afirmativas de raça e gênero em seus processos seletivos. E antes que se diga que o resultado revela que na cadeia produtiva do cinema, há poucas mulheres negras, não corresponde à verdade.

Em 2017, o Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe, idealizado pelo cineasta e ator Zózimo Bulbul, falecido em 2013, completou dez anos de existência e influência dessa mudança de cenário. Após uma década, o festival bateu recorde de inscrições. Entre 98 filmes brasileiros inscritos, foram selecionados 68 obras e pela primeira vez a maioria delas dirigidas e roteirizadas por mulheres negras. Espera-se que a pressão de entidades como a APAN – Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro, criada em 2016, sirva ainda mais para provocar mudanças nesse universo. Desde 2017, a ANCINE criou uma comissão de Gênero, Raça e Diversidade.

Enquanto o mercado ainda não sente o impacto de mudanças significativas, nós, o público que anseia por ter acesso a mais obras de pessoas negras e mais representatividade ficamos em polvorosa com as poucas oportunidades como neste vídeo de reação de dois caras negros diante do cartaz de Pantera Negra - cujo lançamento em fevereiro aguardamos ansiosamente. Quando eles vêm a imagem do elenco negro e refletem: “É assim que as pessoas brancas SEMPRE se sentem quando vão ao cinema?”. Representatividade importa e se faz urgente. Enquanto no cinema ainda não temos cadeira cativa, que tal começar na sala de casa assistindo ao Afrolix - site brasileiro de produções protagonizadas por afrodescendentes?