CINEMA

Jordan Peele não vê graça que "Corra" concorra como comédia no Globo de Ouro

Yazar
Jordan Peele não vê graça que "Corra" concorra como comédia no Globo de Ouro

Crédito: Universal 

O filme “Corra" (Get Out), de Jordan Peele, foi um dos títulos mais bem recebidos entre os lançamentos do cinema em 2017. O terror psicológico sobre como o racismo pode ser extremo é um dos maiores sucessos de bilheteria do ano. Antes mesmo da estreia no Brasil, em maio, já tinha batido recordes de arrecadação e superado a marca de “A Bruxa de Blair” como filme dirigido por um cineasta estreante baseado num roteiro original. De acordo com a Forbes, "Corra", em abril, já tinha lucrado mais 150 milhões de dólares somente nos EUA, enquanto “A Bruxa de Blair”, de 1999, lucrou 140 milhões de dólares na época.

E o retorno positivo não é só de público. Aclamado pela crítica, chega com toda força à temporada de prêmios, e está entre as grandes promessas do Globo de Ouro. Tudo estaria lindo com a carreira do filme, não fosse pela prerrogativa de gênero. Numa iniciativa do próprio estúdio Universal, o longa, que é uma densa crítica a como pessoas brancas sentem-se superiores e em condições de subjugar a situações degradantes as vidas da população negra, foi indicado na categoria melhor filme de Comédia ou Musical, numa tentativa de tentar furar a tradicional esnobada que o gênero terror geralmente recebe como Drama.

O diretor Jordan Peele reagiu, no entanto: “Do que vocês estão rindo?”. Para o realizador, que segundo informações do site Indiewire, não foi consultado a respeito do gênero da candidatura, “a temática do filme não é engraçada, ele é algo muito poderoso para ser rotulado dentro de uma caixinha. Merece estar num debate mais controverso”, tratando da complexidade de camadas que a obra aborda.

“Acho que a questão é que o filme subverte ideias de diversos gêneros. Podem defini-lo como quiserem, mas é uma expressão da minha verdade, da minha experiência e das experiências de muitos negros e minorias”, colocou o cineasta, destacando que “Corra”, na verdade, “é um documentário”.

Certamente o debate técnico sobre a categorização do gênero do filme não é simples. Talvez o próprio sistema de classificar obras esteja obsoleto. Mas no olhar mais amplo, colocar uma crítica ácida e poderosa ao racismo num universo de piada é uma forma institucional de Hollywood manter o racismo exatamente como precisa, sob uma contingência e controle. 

É importante que existam filmes sobre questões raciais para que a indústria não se ateste tão racista, é crucial alimentar símbolos de representatividade de Spike Lee a "Moonlight", pra disfarçar como a cadeia produtiva é majoritariamente branca. Mas também que isso não signifique uma transformação profunda, uma reversão de papéis. É deixar claro que falar de racismo é bom (e até lucrativo), mas não precisa levar a sério.