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Jovem negro vence Prêmio Empreendedor Social revolucionando a comida na favela

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Jovem negro vence Prêmio Empreendedor Social revolucionando a comida na favela

Hamilton da Silva (centro) recebendo prêmio da Folha de S. Paulo. Crédito: Reinaldo Canauto / Folhapress

Passamos em cerca de três décadas de uma nação assolada pela fome para um país de obesidade endêmica e subnutrição. As rarefeitas políticas sólidas de alimentação refletem que, no Brasil, comer bem e saudável é uma questão de classe. O prato pode até não estar mais vazio, mas o que se come está longe do ideal.

Em tempos em que se cogita ração humana, a iniciativa de possibilitar que dentro das favelas as pessoas tenham acesso a comida saudável, já é por si só louvável. Mas Hamilton da Silva, idealizador da franquia Saladorama, que oferece saladas e pratos leves a preços populares em comunidades periféricas, descobriu que além do impacto social, um nicho de mercado ignorado e, por tanto, promissor.

Pelo feito, o jovem Hamilton da Silva, 29 anos, criado em Niterói, é o primeiro negro contemplado pelo prêmio Empreendedor Social, da Folha de S. Paulo. Ele foi vencedor na categoria Escolha do Leitor com a marca de 52% da votação popular online. Seu negócio não só fomenta o consumo saudável, mas também influencia a cadeia produtiva, numa rede de colaboradoras formada essencialmente por mulheres negras, pobres, moradoras de favela, e, algumas, trans. São mais de trezentas mulheres capacitadas e integradas ao mercado de trabalho e ainda uma rede de 15 escolas Lancheirinhas, voltadas para crianças.

Num país onde quase só vemos pretos estampados no jornal em páginas policiais ou artigos jocosos de atrasados do Enem, ele comenta como é um contraponto importante aparecer na Folha de S.Paulo como conteúdo interessante e positivo. "Mais um desafio estético da minha existência. Pelas condições financeiras, pela vulnerabilidade social, pelas escolas, pelas amizades, pelas propostas, pelos pensamentos, pelas falhas, pelas palavras erradas, pela cor, pelo intelecto, pelo palavreado, pelas roupas, pelo gosto musical, pelas escolhas ... Por tantas outras coisas essa foto era matematicamente impossível nesse jornal. A expectativa era que se acontecesse algo ruim que pelo menos saísse no Jornal o Povo... Não julgo quem nunca acreditou, mas valorizo quem sempre sonhou”, desabafou no Facebook o garoto prodígio citado pela Forbes.

Não devemos basear a história negra apenas nos raros exemplos meritocráticos que servem para tornar emblemáticas histórias de superação, sendo a exceção que confirma a regra de falta de oportunidades versus manutenção de privilégios. O caso do Hamilton nos aponta como inspirador pelo fato de um jovem negro e favelado, numa perspectiva já de confronto às estatísticas quando estudava engenharia, não é apenas um bem sucedido empresário, é um agente influenciador com intuito de mudar o cenário de dificuldades em que cresceu. Da favela, para a favela. Não queremos apenas Hamilton como o jovem negro que superou o impossível, queremos milhões de Hamiltons com chances de materializar suas ideias e levar dignidade e andar “tranquilamente na favela onde nasceram”. 

"Levou 13 anos para um negro ser reconhecido por este prêmio. Enxergo como uma grande oportunidade para os próximos empreendimentos que vão surgir. Nos próximos anos, a grande mídia vai estar mais atenta ao negócios que já existem dentro da comunidade, que são muitos. Tem muito preto, muita mulher preta fazendo negócios incríveis e que não têm a visibilidade de outros negócios que não estão nem na rua, são só ideias", avalia o vencedor.