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Crianças não aprendem preconceitos sozinhas

Geisa Agricio
há 7 dias242 visualizações
Crianças não aprendem preconceitos sozinhas
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Crédito: Aaron Burden

Nós, mães e pais, costumamos ter uma crença pueril de que simplesmente ao transmitir nossos valores para nossos filhos, eles estarão de alguma forma blindados aos pensamentos obscurantistas do mundo lá fora. Como negra e feminista, obviamente coloco muita fé que meu filho quando adulto não reproduza opressões de gênero e (auto)preconceitos de raça.

Porém, se estivermos lhes favorecendo um crescimento minimamente saudável em sociedade, eles não viverão numa bolha, e estarão naturalmente expostos a influências para além do que a gente concorda. E como bob esponjas, se a gente não estiver alerta, acabam reproduzindo pensamentos refutáveis ou mesmo estigmas preconceituosos.

Um vídeo publicado há três dias e que já teve mais de 3,5 milhões de visualizações nos faz pensar que não dá pra jogar a toalha e aceitar que crianças repliquem ideias discriminatórias. No vídeo da página Estaremos Lá, uma mulher cria um diálogo empático para se comunicar com seu sobrinho e lhe fazer refletir porque ele considera que “baiano é engraçado e fala estranho” e que pessoas normais são as de São Paulo. É triste a percepção de como é possível que o oprimido reverbere alguma outra forma de opressão. O menino negro de periferia fazendo piada de nordestino.

Mas ao fim, depois da conversa didática, ele acaba compreendendo e mandando um recado alegre para a Bahia. É uma boa tática, a narrativa que, ao invés de acusar a criança, criar um território seguro para que ela consiga se expressar e contar de onde vieram essas ideias. E ainda mais positivo o acolhimento para poder persuadir que aquela ideia não se sustenta em argumentos. É uma aula de comunicação não violenta e de tolerância, vale cada compartilhamento.

Ainda seria bom explicar aos pequenos não apenas que o estigma de “baiano” não sobrecai apenas sobre as pessoas que nasceram no estado da Bahia mas toda a comunidade nordestina, assim como a representação de Nordeste para os cariocas é “paraíba”. 

Museu de Paris vai retomar campanha "tragam seus filhos para ver gente nua"

Geisa Agricio
há 9 dias1.8k visualizações
Museu de Paris vai retomar campanha "tragam seus filhos para ver gente nua"
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Reprodução / Museu d’Orsay

Sabe aquela pintura da pélvis de uma mulher, bastante peluda, que quase parou a internet numa enxurrada de denúncias de conteúdo impróprio no Facebook? A obra “L’Origine du Monde” (“A Origem do Mundo”, assinada por Gustave Courbet em 1866) faz parte do desavergonhado acervo de obras figurativas de nus que integram os museus d’Orsay e da Orangerie, em Paris. Agora, essas instituições muito “salientes” decidiram não só expor nus assim, ora pois, para qualquer pessoa, como ainda querem estimular que as famílias francesas levem crianças para “verem gente nua”.

Museu de Paris vai retomar campanha "tragam seus filhos para ver gente nua"

Reprodução / Museu d’Orsay

Isso mesmo. Enquanto no Brasil a gente tá a todo vapor na máquina do tempo rumo à era das trevas, discutindo censura a obras de arte e criminalizando museus por pedofilia, logo ali, naquela Paris tão exemplar, será retomada uma campanha de 2015 que tem como slogan: “Tragam seus filhos para ver gente nua”. E o mais incrível é que o acintoso estímulo à presença de crianças diante da nudez não gera indignação, mas vem fomentando respeito e aprovação do público.

Segundo Amélie Hardivillier, diretora de comunicação do Museu d’Orsay e da Orangerie, a campanha só tem sido bem recebida e a taxa é de zero polêmica até o momento. Ela também lamentou os episódios brasileiros de fechamento da exposição “Queer Museum”, no Santander Cultural de Porto Alegre, e revolta em torno da performance “La Bête”, de Wagner Schwartz, no MAM de São Paulo. Nos dois centros culturais em que atua, não existe restrição de idade para comungar das exposições. Crianças são bem vindas e a nudez não é tabu nesses espaços. Pode uma coisa dessas? Cadê os fiscais da moral e dos bons costumes do Velho Mundo?

Talvez o conservadorismo pelas bandas de cá seja reflexo da majoritária moral cristã do brasileiro. É realmente um feito resplandecente da catequização - dos jesuítas até os neopentencostais - nos ter transformado dos indígenas naturalistas em uma sociedade que enxerga a nudez (o corpo despido simplesmente, mesmo que inerte) como algo erótico, sujo e condenável. Essa mesma estrutura de proibição do que é natural, leva o corpo a esse lugar do escondido, do escuso, do incorreto. Por isso aqui tem gente que ainda se choca com seio que amamenta.

Na “desenvolvida” Europa, educação sexual faz parte da grade curricular das escolas, enquanto aqui ela não só é combatida como suprimida em nome do ensino religioso. Como mãe, que ainda toma banho junto com o filhote de 8 anos, penso que negar às crianças o debate sobre o corpo, inclusive o próprio, é mais alcova para a ignorância conveniente aos abusos, que permitir o acesso ao conhecimento e prepará-las em segurança sobre o que é consentimento.

Como comentou ontem em entrevista à Veja a psicóloga Rosely Sayão: ‘Ninguém está preocupado de fato com a criança no MAM’ ou estaríamos bradando contra a exposição da sua identidade. No mais, é apenas a certeza que no mundo da hipocrisia, toda nudez será castigada.

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geisa.agricio
Mulher, negra, nordestina, mãe-solo e gorda. Acredita em representatividade e igualdade, e em lugar de fala para escrever uma outra história