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Milena é a primeira protagonista negra da Turma da Mônica

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Milena é a primeira protagonista negra da Turma da Mônica

Reprodução / Nações Unidas

Quando o desenhista Maurício de Souza anunciou esta semana a criação de Milena, a primeira protagonista negra da Turma da Mônica, não consegui parar de pensar em Cleidison de Sena Coutinho. Em 2014, o menino, na época com 10 anos, ficou conhecido nas redes sociais por pintar de marrom as figurinhas das personagens da mais importante HQ do Brasil, em protesto, numa prova de sua escola. E ainda mandou um recadinho 'Pintei da minha cor, tá? Cansei desses desenhos diferentes de mim'.

Cleidison, várias gerações de crianças leitoras da Turma da Mônica, e todos nós também estávamos realmente cansados de não nos vermos representados nos símbolos da nossa infância. É exaustivo ser majoritariamente invisível. Arrisco-me a deduzir que precisou do recado deste garoto para Maurício de Souza reconhecer décadas de ausências de negros nas suas páginas sem problematização.

Mas Cleidison, e por conseguinte, Milena, são provas de que as coisas estão mudando, e que a pulverização da comunicação pelas redes sociais permitiu que cada vez mais negros e negras possam reivindicar os lugares que lhe são negados historicamente.

É claro que além de artista é antes de tudo um mega empresário, atento às tendências de mercado, e diversidade e representatividade aumentam lucros, não apenas capital social. Há uma demanda reprimida de públicos que abraçam cada vez mais o sentido de ser e (consumir) o que se é, não imagem inalcançável de um modelo, um padrão. Em tempos de selfies e autoimagem como essência de marketing de influência, as pessoas querem se ver nos produtos com os quais se identificam. No site da Turma da Mônica já era possível criar “seu próprio personagem” com a cara do internauta. Não é por acaso que a personagem negra chega à revistinhas.

Contudo, o mais legal é que a Milena não é um arremedo de cota, um personagem negro cercado de estereótipos para simbolizar pessoas negras em meio a uma gama de personagens brancos mais aprofundados e com histórias relevantes, a exemplo do único ensejo anterior na história em quadrinhos, o Pelezinho. Ela entra pra galera de Mônica, Magali, Cebolinha e Cascão com contexto: “Ela ama música, futebol e já tem até uma canção para chamar de sua… Um arraso!”, diz o post sobre a nova estrela no perfil do Instagram do cartunista. Milena tem ainda sobrenome Sustenido, para reforçar a referência musical.

Apresentada durante o evento “Corrida Donas da Rua”, apenas como boneco-vivo, ela ainda não estampa as páginas, mas já estamos ansiosos para ver milena colorir a vizinhança do Limoeiro nas bancas.