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O papel higiênico racista ainda nos envergonha

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O papel higiênico racista ainda nos envergonha

Reprodução / Facebook

Marina Ruy Barbosa até se desculpou, a Santher retirou a campanha criticada do ar, mas o uso polêmico da expressão do movimento “Black is Beautiful” pelo slogan do papel higiênico preto da Personal continua repercutindo e causando indignação. Zezé Motta, uma das mais importantes atrizes negras do país, fez um relato emocionante sobre o lema negro americano e o jornal britânico The Guardian estampou um artigo sobre o episódio brasileiro.

O depoimento de Zezé Motta é tocante por falar de uma realidade de décadas atrás, em que mesmo uma atriz em ascensão, empoderada e ativista do movimento negro, tinha sua autoestima abalada pelo racismo no Brasil e inconscientemente se “embranquecia”: alisando os cabelos, usando peruca, cogitando cirurgias plásticas de nariz ou nádegas. Para ela, entrar em contato com a comunidade negra novaiorquina que criou e viveu na pele o Black is Beautiful foi fundamental para o resgate da sua autoestima e o reconhecimento da sua negritude.

“Quando nos apresentamos no Harlem, um grupo de militantes negros ficou chocado com o fato de eu usar peruca. Era o auge do black is beautiful, e a gente tinha que manter as características originais da raça. O Boal ainda me defendeu, disse que eu era engajada e tudo o mais. Nesse dia, voltei para o hotel, tomei um banho demorado e deixei meu cabelo voltar ao natural. É que, além da peruca, eu fazia alisamento com pente quente. Ali eu comecei a me aceitar como negra”, conta Zezé Motta em sua página do Facebook.

Assim, justificou que a importância do movimento não poderia ser desrespeitada pelo intuito puramente comercial de uma marca: “Para uns pode parecer bobagem, mas para mim e para milhares de negras que viveram em plena década de 70, Black is Beautiful foi alto extraordinário, passamos a nos aceitar, a nos empoderar, e não posso achar interessante uma campanha de “papel higiênico” PRETO (tá, tudo bem, sem nenhum problema pois preto é uma cor, até aí, nenhuma “criatividade” como essa me choca mais), ser VENDIDA COMO BLACK IS BEAUTIFUL. RESPEITO, POR FAVOR”, reforçou.

LÁ FORA - Em artigo do The Guardian, o site do jornal britânico reporta o caso com diversos comentários que geraram barulho na internet, como o advogado e presidente da Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra no Brasil, do Conselho Federal da OAB, Humberto Adami. Ele opinou que quando a publicidade sugere tal tipo de racismo subliminar precisa mesmo ser removida porque reforça a cultura do racismo, é gravíssimo. A matéria ainda relembrou a polêmica e contraditória foto da Agência África que, apesar do nome, trazia apenas uma pessoa mestiça no seu casting publicitário.

O vergonhoso mesmo é ver que mesmo com tamanha reação, ainda percebemos no Brasil diversas opiniões que contemporizam o racismo relacionado à campanha. A gente bate na mesma tecla todo dia pra esbarrar com os distópicos que insistem em opinar que “racismo tá nos olhos de quem vê”.