RAÇA

Porque precisamos de mais de uma Glória Maria

Geisa Agricio
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Geisa Agricio
Porque precisamos de mais de uma Glória Maria

(Reprodução / G1)

Na noite de Natal, no último domingo, quem cumpriu aquele tradicional programa de dar uma olhadinha na TV na hora de ceia, pôde se emocionar com o encontro da Glória Maria com a Mirella, a garota de 11 anos que ficou famosa nas redes sociais por brincar de repórter fazendo denúncias sobre problemas do seu bairro, no interior de São Paulo. A reportagem do Fantástico fez uma surpresa à menina que é fã da apresenta e se espelha em seu modelo para alimentar o sonho de um dia ser repórter.

Decerto conhecer um grande ídolo será inesquecível, e a fama conquistada, mesmo que efêmera, será uma memória positiva no seu processo entre crescer e chegar a hora de investir tempo, energia e suor na carreira que almeja, mas o mais interessante da sua vivência é a percepção em que ela coloca Glória Maria na sua vida. “Ela parece comigo”, diz a criança negra em um gesto de puro pertencimento.

Mirella conta que o mais gosta na Glória Maria é como ela faz coisas diferentes que outros repórteres comumente não fazem. É um jeito simples de compreender o status que Glória Maria atingiu como repórter especial da TV Globo, aquela espécie de jornalista que faz matérias complexas e distintas, que viaja muito, que não está mais no cotidiano das notícias do dia.

A menina tem apenas 11 anos, e obviamente não teve tempo de assistir ao auge da trajetória profissional de Glória Maria, entre os anos 90 e 2000. Mas teve a capacidade de entender muito cedo que passaram-se mais de 30 anos e não temos uma nova Glória Maria, uma repórter especial negra na maior rede de televisão do País. Contamos nos dedos às mulheres negras em destaque nacional no jornalismo da Globo, como Zileide Silva e Maju Coutinho.

Estamos acostumados a nem sequer perceber essa ausência, lidar com naturalidade com a presença majoritariamente branca retratando a “realidade” de um país de maioria negra e parda. Isso sem falar que Glória é de uma geração que acredita que o seu papel está resolvido no resultado das suas conquistas, não é um agente transformador coletivo, pouco debate sobre racismo e se refugia no discurso meritocrático em não ser ladeada por outras pessoas iguais a ela.

É preciso que haja mais Glórias Marias para que existam mais Mirellas inspiradas a alcançar grandes posições. Outros exemplos são fundamentais para que Glória Maria não seja esse eterno exemplo único da pessoa com quem nos identificamos e nos espelhamos para sonhar em conquistar nosso lugar.