RAÇA

Psicólogas negras se unem na Rede Dandara

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Psicólogas negras se unem na Rede Dandara

As consequências do racismo na vida das pessoas negras não se dá apenas na dinâmica social, portanto coletiva. Elas afetam diretamente a saúde mental de quem passa a vida sofrendo discriminação e sendo tratado como inferior, por todos os lados: das piadinhas e bullyings da infância à negação de oportunidades e espaços na vida adulta. Inegavelmente, a autoestima é abalada quando o mundo sempre está convencido de que você nunca é suficiente.

A psicologia clássica e suas correntes ocidentais e eurocêntricas não dão conta das especificidades raciais na estrutura emocional de afrodescentes e o Brasil está em busca de linhas terapêuticas que sejam capazes de entender e acolher os efeitos de uma sociedade racista na construção das nossas personalidades.

“As marcas emocionais, causadas por uma discriminação continuada, exigem estratégias de defesa e, ao mesmo tempo, recursos internos para “ir adiante”. A longa exposição às situações de desvalorização causa efeitos múltiplos de dor, angústia, insegurança, auto-censura, rigidez, alienação, negação da própria natureza e outros, deixando marcas profundas na psique”, diz o trecho de abertura do livro Psique e Negritude - Os Efeitos Psicossociais do Racismo.

Espera-se de negros que sejam sempre fortes, de negras que sejam aguerridas. Não há espaço no inconsciente coletivo para a fragilidade negra. Como então lidar com questões de ansiedade, depressão e outras questões psíquicas relativas à raça?

Com o intuito de mudar o cenário e com um olhar voltado para as complexidades de gênero e raça, as psicólogas negras Laura Augusta e Tainã Vieira, de Salvador, ao se depararem com a falta de representatividade na profissão, ainda na faculdade, resolveram mapear e reunir na Rede Dandaras outras profissionais de mesmo perfil que buscam promover saúde no combate a misoginia, inseridas na luta antirracista.

A rede conta com cerca de 530 profissionais de todo Brasil e busca fomentar discussões entre as psicólogas negras e troca de referências teóricas. Há encontros também presenciais, como foco por exemplo em dialogar sobre metodologias de atendimento psicossocial para mulheres vítimas da violência.

Quantas vezes nossos embates giram em torno da rejeição que carregamos ao longo da vida, a gente até intui o elemento racial, mas quem nos ouve não dimensiona na pele o que passamos, mesmo que esteja sensível e tenha empatia. Quanto tempo de nossas vidas levamos em consultórios nos perguntando se aquela ferida da subalternidade é uma coisa da nossa cabeça? Imagina as iguais a nós, que nem podem ter acesso a um tratamento, um acolhimento? Sou uma negra privilegiada que teve acesso a atendimento psicológico desde a juventude. Em nenhuma das poltronas e ou divãs em que confrontei meu fantasmas, me vi de frente à uma psicóloga negra. Está na hora de isso mudar.