RAÇA

Quem é o vilão na caça às bruxas da Globo ao vídeo de Waack?

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Quem é o vilão na caça às bruxas da Globo ao vídeo de Waack?

Reprodução / Instagram 

A Rede Globo instaurou uma devassa interna para descobrir como o seu mais novo arquirrival, Diego Rocha, furou as medidas de seguranças e conseguiu postar uma foto nas dependências do estúdio do Jornal da Globo. Quem é o famoso Diego Rocha? É o ex-funcionário da casa que meses depois de demitido vazou o vídeo em que o todo poderoso âncora William Waack fazia comentários racistas nos bastidores das gravações. A repercussão do caso levou ao afastamento do jornalista da bancada.

Entende-se que Diego Rocha seja agora uma persona non grata já que foi o responsável por tirar esqueletos do armário do racismo institucional que acontece dentro da emissora e levou a empresa a tomar uma posição indigesta graças ao clamor público da viralização do vídeo. Mas a caça às bruxas às pessoas que podem ter permitido a “invasão” de Rocha, mostra que a Globo parece estar mais preocupada em conter vazamentos que em combater o racismo internamente, como política estrutural de enfrentamento à discriminação racial.

Em primeiro lugar, não dá enxergar a mesma proporção de combater os “erros” de seus funcionários, já que devem ser tão ilibados, na medida corretiva ao deslize de Waack. Que está afastado como apresentador, para acalmar os ânimos, mas não perdeu o emprego. É um recado que não é um grande problema ser um colaborador racista, só é um problema se isso se tornar público. Inimigo portanto é quem causa o escândalo não quem pratica racismo.

Isso ressalta que quando se trata de racismo, a Globo deixa escapar pelos seus próprios equívocos como costuma ignorar a questão. O maior conglomerado de comunicação vem sendo há décadas criticado por invisibilizar a maioria negra do país na representatividade de seu elenco, tanto de atores quando de jornalistas à frente das câmeras. Mais da metade população brasileira é negra mas não se vê expressivamente protagonismo negro na TV, e um dos principais responsáveis por essa crise identitária é a própria globo.

Alguns episódios se tornaram marcantes pelos deslizes da emissora sobre questões raciais. A demissão da globeleza Nayara Justino, substituída por uma mestiça de pele clara para o cargo por “ser negra demais”, a campanha equivocada para o Criança Esperança que expunha crianças não brancas a reviverem as experiências racistas em um “experimento social” no mínimo questionável, e mais recentemente à omissão da empresa diante dos insultos direcionados à Taís Araújo, mesmo por autoridades públicas, em contraponto a uma potente reação de apoio aos também astros de suas novelas Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank - aquele casal branco de olhos azuis que adotou uma menina negra - são casos expressivos da falta, digamos, de tato para tratar da profundidade do tema.

Mas o que dizer de como a Globo encara o racismo sabendo que o diretor do jornalismo da companhia, Ali Kamel, é autor daquele livro vergonhoso “Não somos racistas”, que tenta engendrar o discurso da democracia racial freyriana no intuito de desmantelar a política de cotas raciais nas universidades numa teoria de caos de acirramento de tensões sociais que deveriam permanecer debaixo dos panos? Basicamente, faz parte da filosofia da empresa fingir que o racismo não existe ou só se sentir obrigada a falar sobre ele se o escândalo for tão grande que afete sua audiência. Enquanto o foco do problema for Diego Rocha e não William Waack ou Kamel, “racismo a gente vê por aqui”.