Raça
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Raça
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Raça
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

2017 e a gente vai seguir vendo propagandas racistas como a da Dove?

Geisa Agricio
há 12 dias107.6k visualizações

Se um companheiro que já tivesse agredido uma amiga ou conhecida cometesse pela terceira vez uma violência, você cogitaria que ela o perdoasse? Seria capaz de compreender que foi sem querer e que o pedido de desculpas é honesto? Difícil, não é? Estamos vivendo o terceiro caso da marca Dove associada a uma campanha racista, sempre com uma conotação de que, com o uso de seus produtos, o melhor resultado é associado a uma pele branca. É isso mesmo que parece, uma pessoa negra ao se transformar para melhor fica branca ou, como eles chamam, “normal”.

Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸
2017 e a gente vai seguir vendo propagandas racistas como a da Dove?

Reprodução / Instagram

Em poucas horas, a Dove se viu diante de um gerenciamento de crise e obrigada a tirar do ar a campanha publicada ontem, em que uma mulher negra vestindo uma camiseta marrom, vai se transformando na imagem de uma branca vestida com uma camiseta bege. Com quase 1,5 milhão de comentários em reação, o pedido de desculpa que explicava a retirada do ar foi bem padrão, raso e sem mais profundas explicações sobre o conceito de diversidade que queria defender: "Uma imagem que publicamos recentemente no Facebook errou ao representar mulheres negras de forma desrespeitosa. Lamentamos profundamente a ofensa causada".

A Dove é uma das empresas do império Unilever. Dá mesmo para acreditar na inocência da marca que passa por milhões de processos antes de lançar qualquer propaganda? Por quantos escalões entre agências e executivos de marketing passa por autorização a produção de uma campanha milionária com tamanho equívoco? Mesmo tentando presumir que eles não queriam deliberadamente ser racistas, como tentam justificar, dá pra acreditar que ninguém percebeu o tom do discurso?

Vamos fazer o jogo da Poliana e supor que, realmente, todo mundo que viu o anúncio não percebeu o problema. Errar é humano, e faz parte do risco. Mas qual é o fator risco em se insistir pela TERCEIRA, uma, duas, três vezes na mesma ideia? “Assim não tem como te defender, miga”. Não é primeira mancada racista de Dove. Em 2011, em um anúncio de sabonete líquido, havia três mulheres de cores diferentes e essa mesma insinuação de “antes” (negra) e “depois” (branca) em tom de evolução. Em 2015, um rótulo de um produto da marca indicava uso para pessoas com "peles normais e negras". O que é normal, cara pálida?

2017 e a gente vai seguir vendo propagandas racistas como a da Dove?

Campanha Dove (2011)

Para completar o questionamento da intencionalidade da mensagem pensemos em dois fatores. Primeiro, o mundo caminha a passos largos para um conservadorismo de direita, em um momento que o presidente da nação mais influente do mundo, Donald Trump, não consegue nem disfarçar sua simpatia ao protesto neonazista em Charlottesville e defende seu eleitorado “Make America White Again” como liberdade de discurso. Ou seja, existe um público-alvo e uma demanda popular para o racismo: as pessoas claras e simpáticas a esse posicionamento.

Em segundo, não se choquem, a Unilever também produz um produto para clareamento de pele chamado White Beauty - que é febre na Índia, por exemplo, apesar de eticamente questionável e desconhecidos efeitos à saúde (também mental) das mulheres. Enfim, a mensagem subliminar para deixar mulheres negras mais inseguras e insatisfeitas com sua aparência também está presente, garantindo uma reserva de mercado promissora para cosméticos. 

Nada é por acaso. Deu um pouco ou muito errado dessa vez? Talvez. Mas a Dove vai parar de jogar esse jogo? Duvido. É um preço que parece alto mas a conta aparenta estar bem calculada. Resta a quem se sentiu ofendido e que, como eu, não se sente com vocação para “mulher de malandro”, não perdoar nem deixar barato campanhas com mensagens racistas. Pouco importa se foi sem querer, continua sendo violência.

Racismo pode se disfarçar de "regras de conduta" em empresas

Geisa Agricio
há 13 dias66.6k visualizações
Racismo pode se disfarçar de "regras de conduta" em empresas
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Reprodução / Facebook

As empresas, públicas e privadas, podem estar submetidas a ordens de gestão que determinam algumas regras de conduta, tanto entre seus empregados, como até de visitantes. Tem muita repartição que não permite trajar bermuda e sandálias e advogados não podem entrar num fórum sem terno, por exemplo. Há instituições que regulamentam alguns padrões mais rígidos, como fardamentos e até penteados.

As regras do laboratórios Fleury entraram em debate nas redes sociais nessa semana graças ao desabafo de uma funcionária. Por lá, é determinado que cabelos mais longos que a altura do ombro devem ser presos, cabelos soltos são permitidos desde que o corte seja curto ou médio e não tenham franjas. A regra parece ser clara. Mas não foi aplicada ao caso de May Leonel, funcionária negra que se viu obrigada a prender o cabelo crespo estilo black power sob ameaça de demissão, mesmo tendo o visual natural dentro das coordenadas (menor que o ombro e sem franja).

Foi perceptível para ela que o seu cabelo não seria tolerado na recepção do laboratório, por que “esse tipo de cabelo chama muito atenção”. Além do cerceamento das suas madeixas, ela denuncia ter tido que ouvir diversas piadas racistas e ainda lhe ter sido negado o desenvolvimento de projeto sobre racismo corporativo dentro da empresa.

Muita gente colocou, em comentários da sua postagem, que a empresa faz suas regras como quiser, se ela quer trabalhar com blackpower que busque outro emprego. O argumento parece até sensato, se eu não quero usar tal tipo de roupa que não trabalhe com tal tipo de público, etc. Mas não é perspicaz. A questão é que a regra de conduta não pode ser fundamento para constrangimento ou humilhação por questões de raça e classe. Muito menos pode ser discriminatória por um fator que não é escolha de estilo, mas faz parte da natureza do indivíduo, do mesmo jeito que não se pode estabelecer no preenchimento de uma vaga de emprego gênero, cor, tipo de corpo (magreza) ou tipo de cabelo do candidagto em vinculação com as habilidades da função

É por essas e outras que, por exemplo, aquela regra aviltante do acesso de quem pode usar elevador “social” e elevador “de serviço” foi revogada por lei. O que diferencia um e outro não são as pessoas mas as funções, quem está com carga vai pelo de serviço, quem não está a serviço que possa atrapalhar o tráfego, vai por onde quiser. Bem simples né não? Parece...

Mas aí ainda tem gente que se pega no “ah, mas quem tá de serviço é diferente, então pode sofrer restrição”, como naquele caso da “gente diferenciada” do Clube Pinheiros que obrigava babás a usar trajes brancos para frequentar suas dependências. O caso até foi alvo de denúncia do Ministério Público, e voltou à tona esses dias quando um textão de um promotor repleto de comentários racistas e classistas vazou como “ironia” a respeito. Tem comprovação maior do que é o privilégio de homem branco do que o subterfúgio de “era apenas uma piada, as pessoas que não entenderam”?

É assim que vai se naturalizando e perpetuando o que se chama racismo institucional, em que se estabelece, independentemente do proposto da regra, quem tem privilégios e quem não. É uma forma sutil de representar que existe uma regra para todos, mas no cumprimento ela não é tão igualitária ou justa, como prega o ditado “uns mais iguais que outros”. Um exemplo tácito desse tipo de regra de conduta é o “case” da Villa Mix, que foi condenada a pagar indenização a ex-funcionária negra por obrigar deliberadamente que barrasse a presença de pessoas negras na casa sertaneja.

Segundo uma pesquisa Pesquisa Geledés / Criola para a OEA: "O racismo institucional se traduz em formas de ineficiência, negligência e insuficiência institucionais que atuam através de barreiras interpostas entre sujeitos e grupos e a realização de seus direitos. Tem intensa participação direta na produção de vitimização, na negligência ou invisibilização de suas necessidades, terminando por excluí-la dos resultados das conquistas de direitos".

Portanto, essas formas sutis de deixar pra lá casos como esse reforçam a estrutura invisível que perpetua que brancos e negros ainda não sejam vistos socialmente com igualdade de oportunidades. Pouco adianta uma empresa, como disse a May Leonel, fazer o discurso politicamente de que “repudia racismo e até contrata negros”, mas não internaliza política de diversidade nos bastidores da empresa para que seus funcionários possam atuar num ambiente seguro e livre de assédio moral. Se o enfrentamento ao racismo não é real, não passa de mais uma corporação que abusa do racismo disfarçado de manual de conduta. 

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
geisa.agricio
Mulher, negra, nordestina, mãe-solo e gorda. Acredita em representatividade e igualdade, e em lugar de fala para escrever uma outra história