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Vidas negras e violência policial na favela. Mais um caso que não nos choca

Geisa Agricio
há 12 dias22.0k visualizações
Vidas negras e violência policial na favela. Mais um caso que não nos choca
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Jovem Negro Vivo / Campanha Anistia Internacional 

A violência urbana é uma realidade democrática no Brasil, atinge a todos e influencia como nos desenvolvemos como sociedade. Viver entre muralhas, cercas elétricas e carros de vidros fechados para a classe média, levar baculejo aleatório e assistir ao genocídio da população negra para os mais pobres. Se quase ninguém escapa, o preço mais alto da inoperância da segurança pública é pago, com as próprias vidas, pelas pessoas em maior vulnerabilidade. Amarildos, Cláudias, Ítalos e, agora, Marisas engrossam as estatísticas de vítimas da truculência estatal, assinadas pela polícia sob a tal legitimidade da lei.

Vidas negras e violência policial na favela. Mais um caso que não nos choca

Marisa de Carvalho Nóbrega / Arquivo Pessoal 

Marisa de Carvalho Nóbrega, diarista e vendedora, da Cidade de Deus - favela do Rio de Janeiro que dá nome ao filme que foi parar no Oscar- , morreu em decorrência dos ferimentos causados por uma coronhada de fuzil dada por um policial enquanto tentava defender o filho de uma abordagem cheia de abusos contra seu filho, de 17 anos, encurralado a confessar que era traficante já que cometia o crime de estar “bem vestido demais”. Isso mesmo, um rapaz negro, pobre, de favela, só poderia estar bem vestido se fosse bandido.

É assim que a gente segue naturalizando uma justiça que sem nenhum indício palpável pode abordar, agredir, prender e matar pelo simples fato que alguém parece ser bandido. E bandido no Brasil, aquele mesmo que todo mundo diz que melhor morto, aparenta ter um perfil muito óbvio: negro e pobre. O Brasil idolatrar o Capitão Nascimento, personagem de Wagner Moura em Cidade Deus, é sintomático. Uma simpatia por uma polícia que animaliza o criminoso, e na visão moralista do nosso senso comum, uma torcida pela punição, doa a quem doer.

Essa lógica só se sustenta numa perspectiva coletiva que não se indigna quando dói até em quem não merece. Cultuar a FORÇA policial é um passaporte para tolerar que casos como o de Marisa nos pareçam apenas uma consequência triste dos “ossos do ofício”. E assim as vidas negras perdidas diariamente nas periferias brasileiras são contemporizadas pelos veículos midiáticos, amanhã já não lembraremos seus nomes nem criaremos hashtags #somostodosquemmesmo?

Segundo a anistia internacional, o Brasil é o país onde mais se mata no mundo. Mais da metade dos homicídios tem como alvo jovens entre 15 e 29 anos, destes, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados. De acordo com o texto da campanha Jovem Negro Vivo, "o números alarmante em geral são "tratados com indiferença na agenda pública nacional. As consequências do preconceito e dos estereótipos negativos associados a estes jovens e aos territórios das favelas e das periferias devem ser amplamente debatidas e repudiadas". Uma mãe morreu para defender um filho acusado de estar bem vestido demais. Quem sabe um dia a gente saia da inércia e entenda que #vidasnegrasimportam

2017 e a gente vai seguir vendo propagandas racistas como a da Dove?

Geisa Agricio
há 13 dias114.4k visualizações

Se um companheiro que já tivesse agredido uma amiga ou conhecida cometesse pela terceira vez uma violência, você cogitaria que ela o perdoasse? Seria capaz de compreender que foi sem querer e que o pedido de desculpas é honesto? Difícil, não é? Estamos vivendo o terceiro caso da marca Dove associada a uma campanha racista, sempre com uma conotação de que, com o uso de seus produtos, o melhor resultado é associado a uma pele branca. É isso mesmo que parece, uma pessoa negra ao se transformar para melhor fica branca ou, como eles chamam, “normal”.

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2017 e a gente vai seguir vendo propagandas racistas como a da Dove?

Reprodução / Instagram

Em poucas horas, a Dove se viu diante de um gerenciamento de crise e obrigada a tirar do ar a campanha publicada ontem, em que uma mulher negra vestindo uma camiseta marrom, vai se transformando na imagem de uma branca vestida com uma camiseta bege. Com quase 1,5 milhão de comentários em reação, o pedido de desculpa que explicava a retirada do ar foi bem padrão, raso e sem mais profundas explicações sobre o conceito de diversidade que queria defender: "Uma imagem que publicamos recentemente no Facebook errou ao representar mulheres negras de forma desrespeitosa. Lamentamos profundamente a ofensa causada".

A Dove é uma das empresas do império Unilever. Dá mesmo para acreditar na inocência da marca que passa por milhões de processos antes de lançar qualquer propaganda? Por quantos escalões entre agências e executivos de marketing passa por autorização a produção de uma campanha milionária com tamanho equívoco? Mesmo tentando presumir que eles não queriam deliberadamente ser racistas, como tentam justificar, dá pra acreditar que ninguém percebeu o tom do discurso?

Vamos fazer o jogo da Poliana e supor que, realmente, todo mundo que viu o anúncio não percebeu o problema. Errar é humano, e faz parte do risco. Mas qual é o fator risco em se insistir pela TERCEIRA, uma, duas, três vezes na mesma ideia? “Assim não tem como te defender, miga”. Não é primeira mancada racista de Dove. Em 2011, em um anúncio de sabonete líquido, havia três mulheres de cores diferentes e essa mesma insinuação de “antes” (negra) e “depois” (branca) em tom de evolução. Em 2015, um rótulo de um produto da marca indicava uso para pessoas com "peles normais e negras". O que é normal, cara pálida?

2017 e a gente vai seguir vendo propagandas racistas como a da Dove?

Campanha Dove (2011)

Para completar o questionamento da intencionalidade da mensagem pensemos em dois fatores. Primeiro, o mundo caminha a passos largos para um conservadorismo de direita, em um momento que o presidente da nação mais influente do mundo, Donald Trump, não consegue nem disfarçar sua simpatia ao protesto neonazista em Charlottesville e defende seu eleitorado “Make America White Again” como liberdade de discurso. Ou seja, existe um público-alvo e uma demanda popular para o racismo: as pessoas claras e simpáticas a esse posicionamento.

Em segundo, não se choquem, a Unilever também produz um produto para clareamento de pele chamado White Beauty - que é febre na Índia, por exemplo, apesar de eticamente questionável e desconhecidos efeitos à saúde (também mental) das mulheres. Enfim, a mensagem subliminar para deixar mulheres negras mais inseguras e insatisfeitas com sua aparência também está presente, garantindo uma reserva de mercado promissora para cosméticos. 

Nada é por acaso. Deu um pouco ou muito errado dessa vez? Talvez. Mas a Dove vai parar de jogar esse jogo? Duvido. É um preço que parece alto mas a conta aparenta estar bem calculada. Resta a quem se sentiu ofendido e que, como eu, não se sente com vocação para “mulher de malandro”, não perdoar nem deixar barato campanhas com mensagens racistas. Pouco importa se foi sem querer, continua sendo violência.

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geisa.agricio
Mulher, negra, nordestina, mãe-solo e gorda. Acredita em representatividade e igualdade, e em lugar de fala para escrever uma outra história