RAÇA

Racismo institucional escancarado em prova de concurso público

Geisa Agricio
Autor
Geisa Agricio
Racismo institucional escancarado em prova de concurso público

Reprodução / Internet

Parece um piada de extremo mau gosto, mas a realidade do Brasil é praticamente um roteiro pronto para o Sensacionalista, tamanho o absurdo cotidiana. Nos últimos dias veio a público uma notícia chocante entre tantos retrocessos que temos acompanhado recentemente: um concurso público da Prefeitura de Morrinhos, na região sul de Goiás, trazia na prova de conhecimentos gerais uma questão sobre “a origem do racismo” em que todas as alternativas de resposta de interpretação a um texto bíblico eram pura ofensa racial.

As quatro possibilidades de “interpretar” a questão eram frases como “negro deitado é um porco, de pé é um toco”, “negro parado é suspeito, correndo é ladrão, voando é urubu”, “negro quando não suja na entrada, suja na saída” e “negro de gente só tem os dentes” - que segundo o gabarito seria a alternativa “certa” para justificar qual o provérbio racista que se assemelha ao trecho do livro Gênesis, da Bíblia, com o fundamento religioso para a naturalização da escravidão da população africana.

Entre risadas e incômodos ante da questão, apenas um candidato, Hélio de Araújo Júnior, levou o caso à instância judicial. Prestou queixa na delegacia contra a prefeitura e o instituto responsável pelo certame, Instituto Consulpam, de Fortaleza (CE), pelo caráter discriminatório da prova. A Polícia Civil apura se houve crime de racismo. Mesmo munido de razão e coragem, não é tão simples quanto se pensa denunciar racismo no Brasil, apesar de crime inafiançável: “Foi muito difícil denunciar, chegar em órgão público e as pessoas acham isso normal. O Ministério Público da minha cidade me disse que não viu crime algum nisso”, disse o candidato em uma entrevista.

Racismo institucional escancarado em prova de concurso público

Hélio de Araújo Júnior, candidato que denunciou a prova e prestou queixa em delegacia (Reprodução / Internet)

O representante da empresa responsável pelo concurso e coordenador, Apolônio Nunes de Oliveira, disse em entrevista ao G1 o argumento-mor que qualquer racista apanhado em confusão usa em 100% das desculpas públicas: a não intencionalidade de ofensa. Bom, se eu atropelar alguém, mesmo que por acidente, há punição para o delito. Dizer que não ter tido intenção de ofender não apaga o dano, nesse caso moral, às pessoas negras, e o processo deve atingir os responsáveis.

O delegado Fabiano Jacomelis afirmou que os responsáveis pela prova e a prefeitura serão intimados para prestar esclarecimento e caso haja infração à lei de racismo os envolvidos poderão responder pelas penas existentes na legislação. A Prefeitura de Morrinhos tentou se eximir da corresponsabillidade da prova, citando que para ser legítima apenas o instituto tem acesso às questões antes da aplicação, portanto, desconhecia o teor das questões, disse que vai tomar “medidas cabíveis”, que obviamente não descreve quais são, como por exemplo o cancelamento do concurso e o ressarcimento aos cofres públicos do contrato com tal empresa responsável pelo crime.

É preciso falar de racismo e faz sentido que o tema esteja em debate em concursos, mas não se pode ter uma abordagem irresponsável e lugar comum, esvaziando a problemática e insuflando a polêmica pela polêmica. A questão reforça estereótipos violentos de raça que desumaniza pessoas negras como se fosse algo banal.

Que tipo de agentes públicos são classificados ao serviço de cuidar e atender a comunidade que não se manifestam perante racismo? As instituições públicas que deveriam zelar pelos direitos humanos e bem estar social reproduzem sistematicamente as injustiças sociais de outras esferas coletivas. Ser preto, ser mulher, ser pobre no Brasil, diante de tantas faltas de políticas públicas. Imagine cogitar que a chance de mudar de vida seja justamente se integrando ao sistema, estudando para um concurso. E ter que se deparar que esse sistema além de não lhe acolher lhe ridiculariza?