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Racismo pode se disfarçar de "regras de conduta" em empresas

Geisa Agricio
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Geisa Agricio
Racismo pode se disfarçar de "regras de conduta" em empresas

Reprodução / Facebook

As empresas, públicas e privadas, podem estar submetidas a ordens de gestão que determinam algumas regras de conduta, tanto entre seus empregados, como até de visitantes. Tem muita repartição que não permite trajar bermuda e sandálias e advogados não podem entrar num fórum sem terno, por exemplo. Há instituições que regulamentam alguns padrões mais rígidos, como fardamentos e até penteados.

As regras do laboratórios Fleury entraram em debate nas redes sociais nessa semana graças ao desabafo de uma funcionária. Por lá, é determinado que cabelos mais longos que a altura do ombro devem ser presos, cabelos soltos são permitidos desde que o corte seja curto ou médio e não tenham franjas. A regra parece ser clara. Mas não foi aplicada ao caso de May Leonel, funcionária negra que se viu obrigada a prender o cabelo crespo estilo black power sob ameaça de demissão, mesmo tendo o visual natural dentro das coordenadas (menor que o ombro e sem franja).

Foi perceptível para ela que o seu cabelo não seria tolerado na recepção do laboratório, por que “esse tipo de cabelo chama muito atenção”. Além do cerceamento das suas madeixas, ela denuncia ter tido que ouvir diversas piadas racistas e ainda lhe ter sido negado o desenvolvimento de projeto sobre racismo corporativo dentro da empresa.

Muita gente colocou, em comentários da sua postagem, que a empresa faz suas regras como quiser, se ela quer trabalhar com blackpower que busque outro emprego. O argumento parece até sensato, se eu não quero usar tal tipo de roupa que não trabalhe com tal tipo de público, etc. Mas não é perspicaz. A questão é que a regra de conduta não pode ser fundamento para constrangimento ou humilhação por questões de raça e classe. Muito menos pode ser discriminatória por um fator que não é escolha de estilo, mas faz parte da natureza do indivíduo, do mesmo jeito que não se pode estabelecer no preenchimento de uma vaga de emprego gênero, cor, tipo de corpo (magreza) ou tipo de cabelo do candidagto em vinculação com as habilidades da função

É por essas e outras que, por exemplo, aquela regra aviltante do acesso de quem pode usar elevador “social” e elevador “de serviço” foi revogada por lei. O que diferencia um e outro não são as pessoas mas as funções, quem está com carga vai pelo de serviço, quem não está a serviço que possa atrapalhar o tráfego, vai por onde quiser. Bem simples né não? Parece...

Mas aí ainda tem gente que se pega no “ah, mas quem tá de serviço é diferente, então pode sofrer restrição”, como naquele caso da “gente diferenciada” do Clube Pinheiros que obrigava babás a usar trajes brancos para frequentar suas dependências. O caso até foi alvo de denúncia do Ministério Público, e voltou à tona esses dias quando um textão de um promotor repleto de comentários racistas e classistas vazou como “ironia” a respeito. Tem comprovação maior do que é o privilégio de homem branco do que o subterfúgio de “era apenas uma piada, as pessoas que não entenderam”?

É assim que vai se naturalizando e perpetuando o que se chama racismo institucional, em que se estabelece, independentemente do proposto da regra, quem tem privilégios e quem não. É uma forma sutil de representar que existe uma regra para todos, mas no cumprimento ela não é tão igualitária ou justa, como prega o ditado “uns mais iguais que outros”. Um exemplo tácito desse tipo de regra de conduta é o “case” da Villa Mix, que foi condenada a pagar indenização a ex-funcionária negra por obrigar deliberadamente que barrasse a presença de pessoas negras na casa sertaneja.

Segundo uma pesquisa Pesquisa Geledés / Criola para a OEA: "O racismo institucional se traduz em formas de ineficiência, negligência e insuficiência institucionais que atuam através de barreiras interpostas entre sujeitos e grupos e a realização de seus direitos. Tem intensa participação direta na produção de vitimização, na negligência ou invisibilização de suas necessidades, terminando por excluí-la dos resultados das conquistas de direitos".

Portanto, essas formas sutis de deixar pra lá casos como esse reforçam a estrutura invisível que perpetua que brancos e negros ainda não sejam vistos socialmente com igualdade de oportunidades. Pouco adianta uma empresa, como disse a May Leonel, fazer o discurso politicamente de que “repudia racismo e até contrata negros”, mas não internaliza política de diversidade nos bastidores da empresa para que seus funcionários possam atuar num ambiente seguro e livre de assédio moral. Se o enfrentamento ao racismo não é real, não passa de mais uma corporação que abusa do racismo disfarçado de manual de conduta.