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Terrorista de Las Vegas: a humanização do vilão é um privilégio branco

Geisa Agricio
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Geisa Agricio
Terrorista de Las Vegas: a humanização do vilão é um privilégio branco

Reprodução / Facebook

Vai passando o calor da cobertura de urgência e surgem as notícias analíticas sobre o massacre em Las Vegas, em que um atirador de 64 anos abriu fogo do 32º andar do hotel Mandalay Bay com 23 armas semiautomáticas – incluindo um fuzil AK-47 – contra a plateia de um festival de música, deixando ao menos 59 mortos e mais de 500 feridos. Naturalmente, é hora de refletir sobre a política armamentista que levou ao maior atentado com armas de fogo da história dos Estados Unidos. É tempo de investigar as ligações do autor da chacina com o Estado Islâmico e suas pretensas conexões terroristas entre tantas outras possibilidades de reverberar um fato que estarreceu o mundo.

Mas algumas vozes da internet se ativeram ainda para um desdobramento específico da tragédia, a representação midiática do atirador. Fica claro como as instituições policiais e os veículos jornalísticos acabam por diferenciar o tal “atirador solitário”, um cidadão americano branco e de classe média, de um “terrorista”, estigma que recai apenas quando se trata de outras referências étnicas e raciais, como negros, imigrantes e principalmente muçulmanos.

Parece uma besteira, uma sutil troca de palavras, mas, institucionalmente, quando um homem branco é julgado, é pela sua individualidade, a narrativa debruça-se sobre sua história e suas motivações pessoais. É bastante diferente quando o julgamento é social, o agressor é visto por uma simbologia de grupo, definido pela sua imagem coletiva. Olha só que louco: o Estado Islâmico assumiu a autoria do atentado, mas, pasmem, isso vem sendo refutado sistematicamente pelas autoridades, por que é “naturalmente” incongruente que um homem branco, de meia idade, sem histórico criminal, possa ser um terrorista. Quem questionaria ligações com uma célula terrorista se o mesmo atirador fosse muçulmano ou simplesmente um imigrante do Oriente Médio? A quem interessa que um cidadão, nascido criado na terra dos sonhos, não seja associado à ameaça do terrorismo?

No Brasil, o processo também é semelhante, um dos maiores portais nacionais trazia hoje ao longo do dia o título “Perfil 'normal' de atirador desafia polícia na busca por motivação de massacre”. Ou seja, assassinar 59 e ferir mais de 500 e ser considerado um perfil normal, é nitidamente um privilégio branco de poder ser olhado com compaixão, sua humanidade é preservada. A um homem negro, não lhe caberia nem ter sua sanidade sob suspeição, ele seria absolutamente, aos olhos da sociedade, um animal, brutal, vil e sanguinário, muito ciente das suas ações.

Hoje, sabemos o nome de Stephen Paddock, e que aos seus 64 anos, estava prestes a se aposentar. Pouco sabemos dos nomes dos 111 “bandido bom é bandido morto” assassinados em Carandiru há exatos 25 anos, na mesma data do massacre de Las Vegas. Tal qual o filho de desembargadora detido em abril com 130 quilos de maconha, centenas de munições de fuzil e uma pistola nove milímetros, foi considerado pelo sistema prisional brasileiro um usuário de drogas com necessidade de tratamento e libertado. Enquanto Rafael Braga, negro, pobre e morador de rua, manteve-se preso ao ser detido nas manifestações de 2013 com duas garrafas de pinho sol e acabou condenado a cinco anos de prisão por porte de aparato incendiário ou explosivo. Não existe coincidência. Já reparou que nunca houve um “Mendigo gato” negro?