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Violência contra religiões de matriz africana pode ser denunciada em aplicativo

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Violência contra religiões de matriz africana pode ser denunciada em aplicativo

Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

Uma das faces mais alarmantes do racismo institucional no Brasil se dá pela intolerância às religiões de matriz africana. Há séculos, desde a época da escravatura, preservar as tradições de terreiros de candomblé e umbanda tem sido por atos de resistência contra a ordem vigente e religião institucionalizada como oficial. Na época da colônia, os ritos negros já eram perseguidos pela moral cristã da Igreja Católica. Hoje, apesar do Estado Laico, o Brasil vem se tornando uma nação evangélica, e assistindo ao crescimento da bancada da Bíblia, num arroubo institucional que mistura religião, política e ainda mídia de massa, com o domínio de igrejas em diversos canais de tvs e rádio.

Por conseguinte, o número de ataques violentos a praticantes de religiões afro tem crescido e alarmado diversas organizações do movimento negro. Em um levantamento das ONGs Criola e Ilê Omiojuarô sobre a intolerância religiosa no Brasil e no estado do Rio de Janeiro, o dados compilados pela Comissão de combate à Intolerância Religiosa do RJ (CCIR) em 2016, revelam que “mais de 70% de 1.014 casos de ofensas, abusos e atos violentos registrados no Estado entre 2012 e 2015 são contra praticantes de religiões de matrizes africanas”.

O Rio de Janeiro tem registrado diversos casos de intolerância. Nos últimos dois meses, o Disque Combate ao Preconceito acolheu 32 denúncias, sendo oito em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense – município com a maior concentração de terreiros. Em dois casos, sacerdotes de religiões afro-brasileiras são ameaçados e obrigados por criminosos - supostamente cristãos neopentecostais ligados ao tráfico de drogas -, a destruir altares e objetos religiosos.

Léo Akin Olakunde, candomblecista carioca, decidiu reagir aos comentários ofensivos e à violência que cerca as religiões de matriz africana e criar um aplicativo para denúncias. O projeto, criado com um amigo e sua namorada, se chama “Oro Orum- Axé eu respeito” está disponível para download em celulares desde a semana passada e funciona gratuitamente acolhendo denúncias de intolerância religiosa. Tem também um botão de SOS para as vítimas.

É triste um país que não convive com a diversidade e não entende a importância da preservação de religiões distintas como salvaguarda da história de um povo, das suas tradições seculares em diversos aspectos. Sabemos que não é de hoje que templos afros sofrem ataques e sofrem com o preconceito. Declarar-se candomblecista ou umbandista é quase uma sentença ao desrespeito. Um dos casos notórios foi o ataque virtual sofrido pela participante do programa culinário Cozinheiros em Ação, do GNT, Carmem Virginia.

Desde sempre, para sobreviver, além dos movimentos clandestinos, as religiões afro viveram o sincretismo das suas simbologias. Se hoje todos nós conhecemos Yemanjá, é porque afetivamente o orixá passou a ser tolerado como um paralelo de Nossa Senhora da Conceição. Este é apenas um dos exemplos do processo que tenta anular as expressões religiosas de ancestralidade africana.

Estamos acostumados a nos indignar com países rígidos na moral religiosa que pauta a vida social, a exemplo de realidades extremas como a do talibã afegão e nos é fácil julgar muçulmanos como a representação do conservadorismo que não dialoga, mas para onde estamos caminhando se as diversas religiões não convergiram em respeito aos próximos? O comediante Gustavo Mendes mandou um recadinho sobre o tema e bastou tocar no assunto para choverem discursos de ódio na sua time line.