RAÇA

William Waack e o racismo à mostra em vídeo

Autor
William Waack e o racismo à mostra em vídeo

Reprodução / Internet

Não tardou uma resposta com uma tentativa de desculpa politicamente correta (ou palatável) para o comentário racista que o jornalista William Waack fez em vídeo que vazou dos bastidores de uma gravação do Jornal da Globo. Disse que não lembra e que não queria ofender. No intervalo do programa, comenta com um entrevistado o problema sobre um barulho de buzina ao redor do local de gravação perto da Casa Branca nos Estados Unidos: “"Tá buzinando por quê, seu m**** do cacete? Não vou nem falar, porque eu sei quem é... é preto. É coisa de preto."

A desfaçatez do racismo de Waack não me impressiona. Boa parte da classe média branca e conservadora mantém o mesmo tipo de piada nas mesas de jantares de suas casas. Provavelmente o jornalista agora se sente aviltado e exposto, não por ser chamado de racista, mas por ter sido pego em flagrante. Afinal, uma pesquisa do Instituto Data Popular mostra a contradição da nossa falsa e demagoga democracia racial: apesar de 92% dos brasileiros acreditarem que há racismo no país, somente 1,3% se considera racista. Ou seja, se tem racismo, quem o pratica? Mais verdadeiramente: quem o assume?

A própria mídia, sendo corporativista, tenta aliviar a questão. A maioria das manchetes relativiza. Os diversos veículos de notícias do país titulam o fato apontando que Waack é “acusado” de racismo – para quem entende de semiótica, ele deixa de ser o agente para ser o sujeito passivo da ação que recai sobre o movimento que está ali reclamando – ou trata o ocorrido como “suposto racismo”. O que conseguiria mais claramente atestar o racismo do que aquilo que acontece ali, filmado, diante dos nossos olhos?

A internet não perdoou. Há um clamor pela demissão do jornalista que está longe de ser exceção. Eu mesma, como repórter, já ouvi centenas de piadas discriminatórias, de raça, gênero e contra nordestinos. Todos os panos mornos foram passados, ninguém sofreu represália. Então percebo, entre muitos contatos da minha bolha das redes sociais, que o desejo pela “cabeça” de Waack mais tem a ver com as divergências políticas, por ele ser uma voz conservadora, que por de fato, se desejar justiça racial.

De fato, vai ficar bem feio para a Globo não demiti-lo e apenas afastá-lo como anunciou. Mas duvido que resvale nas ações da empresa que não parece ter se abalado com o caso da Globeleza demitida por ser negra demais. Se nem José Mayer foi demitido da emissora depois de um rol de celebridades vestindo camisetas “mexeu com uma, mexeu com todas”, imagine o que vai acontecer com um branco poderoso que fala mal de preto? Fico esperando um elenco estrelado vestindo a camiseta em defesa dos pretos. Será que vai ter?