OUTROS

Saí meio decepcionado do show dos Rolling Stones. Explico por que fui a exceção

Giu Carpes
Author
Giu Carpes
Saí meio decepcionado do show dos Rolling Stones. Explico por que fui a exceção

Já aviso de antemão: sou daqueles caras chatos, mau humorados, o estereótipo do jovem (33 anos é jovem ainda, né?) "com cabeça de velho". Em geral, não gosto de multidões nem gasto meu dinheiro com grandes shows de rock - a menos que sejam de nomes praticamente incontestáveis do passado. Enfim, aparentemente sou bem diferente dos quatro jovens senhores que empolgam plateias pelo mundo todo com sua música e carisma há mais de 50 anos. Talvez isso explique parte da minha decepção ao sair do primeiro show dos Rolling Stones no Brasil depois de 10 anos. O resto são fatos que elenco mais abaixo. 

Fui a um show dos Stones pela primeira vez em 2006, no Estádio Olímpico de Sydney (Austrália). Foi uma decisão de ocasião, nada planejada. Morava na cidade e a organização do espetáculo liberou um lote de ingressos a preços populares. Mesmo com pouco dinheiro no bolso, resolvi investi-lo no espetáculo porque eles recém haviam realizado aquele já lendário concerto para mais de 1 milhão de pessoas em Copacabana e também era uma oportunidade de conhecer o palco da Olimpíada de 2000. Fui lá, fiquei no lugar mais longe possível do palco, mas saí de alma lavada depois de passar duas horas me chacoalhando freneticamente. 

No último sábado foi diferente e explico o porquê: os contras encontrados antes e durante o show foram bem mais pesados que os prós que listo abaixo.

Os contras:

1. A costumeira desorganização: as informações sobre onde ficavam as entradas para a pista foram desencontradas em meio ao maior temporal, a fila para comprar fichas de comida e bebidas nos caixas era enorme, a espera era na chuva mesmo sem proteção, o atendimento era lentíssimo, as fichas eram de papel de recibo de máquina de cartão de crédito (ou seja, se desmanchavam com a água) e não eram aceitas pelos ambulantes na plateia, a comida era cara, a abertura ficou a cargo do Ultraje a Rigor, o fatiamento da pista com uma sessão premium levou os mais endinheirados para a frente do palco e os mais fãs para trás.  

2. Superlotação (da pista, pelo menos): a pista dos meros mortais parecia pequena demais para dar conta da massa. Precisei passar um bom tempo brigando mentalmente comigo mesmo para não desistir de estar ali. Vi pelo menos duas pessoas passarem mal - um senhor precisou ser levado para fora numa maca.  

3. Distância da pista pro palco: a pista premium ficava na boca do palco. A pista normal para trás do meio do gramado. Consegui enxergar Mick Jagger apenas duas vezes (a não ser pelo telão) e ele parecia um bonequinho lá longe. 

4. Som muito baixo. Essa foi crucial. Mesmo que você não seja um fã de música alta, você vai a um show de rock esperando muito barulho. O som do show dos Stones estava num volume baixo demais, nem senti o chão tremer uma vezinha sequer (Risos). Deu até para comentar com a patroa na maior tranquilidade, em meio ao show, o resultado de mais um caucus da eleição americana recém recebido no celular. Sério.

5. Set list burocrático demais. Obviamente o show começaria com Start Me Up e terminaria com (I Can't Get No) Satisfaction. Na Austrália, lembro de ter visto a dançante Don't Stop e Anybody Seen My Baby. Aqui, tocaram mais os grandes sucessos mesmo e foi isso. Senti falta de pelo menos uma surpresinha mais animada que a nova Doom and Gloom, que ninguém sabia cantar.

6. Improvisações chatas. A resenha do jornal O Globo considerou a jam session de mais de 10 minutos em torno de Midnight Rambler o ponto alto da noite. Eu fiquei bastante entediado. Os caras dos Stones não são exatamente reconhecidos por serem grandes músicos, mas sim por formarem uma banda carismática e cheia de hits. Eu prefiro ouvir os hits do que as improvisações de reefs e solos de guitarra sujos. Sei lá, esse sou eu. 

7. Pirotecnia quase zero. Na primeira vez que vi os Stones, de tempos em tempos rolavam uns fogos de artifício para dar uma animada. Inclusive foram os fogos que anunciaram de surpresa um segundo bis. Eu vou num show dos Stones ou de qualquer grande banda de rock performático (tipo Kiss, por exemplo), esperando um foguetório aqui, outro ali. No show do Rio, espocaram uns foguinhos umas duas vezes, mas nada de assustar ou empolgar. Nem sei se eram foguinhos, na verdade. Parecia papel picado.  

8. Os malas que ficam filmando todo o show e não assistem direito. Vi mais celulares fazendo vídeos horríveis no meu campo de visão do que músicos da banda no palco. É um mal moderno e aparentemente não há nada que a organização ou a banda possa fazer. É má educação dar um tapa no celular alheio que atrapalha o barato dos outros?

9. Empolgação em geral bem baixa. Os motivos anteriores certamente colaboraram para a empolgação do público não ter sido nem perto da maior que eu já vi num show de rock. Vi várias pessoas dizendo coisas como "foi o melhor show que eu já vi", "que show foda", mas durante vários momentos da noite vi essas mesmas pessoas paradonas com cara de tédio (eu era uma delas em boa parte do show). Ou seja, essas frases para os amigos devem ser para justificar o investimento do ingresso caro (Risos).

Prós:

1. As várias interações de Mick Jagger com o público em PORTUGUÊS: ter um filho brasileiro certamente ajuda essa lenda do rock a ficar ainda mais simpático com o público brasileiro que de costume. No Rio, ele fez até piadinha na nossa língua.

2. A energia de Mick Jagger: em 2006 lembro de ter ficado impressionado com o pique, a disposição e o controle de palco do astro. Em 10 anos, o cara não perdeu nem 1% de tudo isso. Impressionante. Ele tem 72 anos e está muito melhor de preparo físico e animação do que eu com menos da metade da idade (silêncio reflexivo). 

3. O carisma da banda. Já ouvi centenas de avaliações sobre a qualidade nada impressionante de Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts como músicos. No palco, acho que isso conta pouco. Musicalmente, eles fazem o feijão com arroz, mas são lendas do rock pelo carisma, que continua intacto. A sua maneira, cada integrante da banda é uma figuraça.

4. A qualidade da banda. Mesmo que não sejam um a um músicos excepcionais, os quatro formam um time fantástico. E sabem contratar músicos de apoio (baixista, tecladista, instrumentos de sopro, backing vocals, etc) muito bons. Eles também dão um show. 

Placar final: vitória de 9 a 4 dos contras sobre os prós. O show pra mim foi no máximo nota 7. Não iria de novo. Espero que em São Paulo e Porto Alegre o som esteja pelo menos mais alto. Já ajudaria bastante a melhorar esse score.

* A foto é do camarada ​Daniel Ramalho​, que esteve no show de Copacabana e também achou esse do Maracanã bem meia boca.