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A história do americano que ficou preso no Iêmen

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Os Estados Unidos deixaram cidadãos americanos sem auxílio em plena Guerra Civil

A história do americano que ficou preso no Iêmen

Mokhtar Alkhanshali é americano, mas possui raízes familiares no Iêmen. De origem pobre, cresceu, junto com seus oito irmãos, no distrito de Tenderloin, em São Francisco, nos Estados Unidos.

Durante a adolescência, Alkhanshali tentou conquistar seu diploma universitário, mas os caminhos da vida o levaram a seguir a carreira de porteiro de um prédio residencial. Em uma de suas caminhadas diárias de sua casa até o local de trabalho, percebeu a presença de uma estátua de um sujeito com as mãos levantadas sobre a cabeça, bebendo uma xícara de café. Sem muita certeza, mas seguindo os traços da fisionomia do rapaz, colocou na cabeça que tratava-se de um homem iemenita. Não era.

Mesmo assim, ele decidiu pesquisar sobre a estátua. Descobriu que era o símbolo de um antigo café da região, e nada mais. Mas o interesse pela história permaneceu, o que levou Alkhanshali a uma interessante descoberta: durante anos, o Iêmen foi o centro das negociações mundiais de café. A partir daí, sua vida tomou outro rumo.

Sem experiência como agricultor ou importador, Alkhanshali voou para o Iêmen, reconectou-se com sua distante família e visitou 32 regiões do país onde o café ainda era cultivado. Encontrou-se com fazendeiros e coletivos agrícolas, fez planos para melhorar sua cultura - e suas fortunas -, aprimorando a qualidade do café iemenita e reintroduzindo-o no mercado mundial. Ele estava bem a caminho de um sucesso improvável quando uma Guerra Civil tomou conta do país.

De um lado, as forças oficiais do governo de Abd-Rabbu Mansour Hadi, apoiadas por uma coalizão sunita liderada pela Arábia Saudita. Do outro, a milícia rebelde huti, de xiitas, apoiada pelo Irã. No início de 2015, o conflito deixou de ser diplomático. E Alkhanshali estava lá bem nesse momento.

A história do americano que ficou preso no Iêmen

O americano perdeu as contas de quantas vezes seu prédio balançou com bombardeios próximos. Depois de poucos dias, a certeza: era hora de sair do país. Dirigiu-se a uma agência qualquer e pediu duas passagens – seu amigo Andrew também iria junto – de volta aos Estados Unidos. O atendente reagiu com genuíno espanto: “Do que você está falando? Não existe mais aeroporto nenhum”.

Os sauditas haviam destruído o único aeroporto da cidade. Alkhanshali passou a checar o site do departamento estadual dos EUA, esperando encontrar informações sobre uma evacuação organizada para cidadãos americanos. Afinal, havia precedente para isso. Em 2006, o Pentágono e o departamento estadual ajudaram 15 mil americanos a sair do Líbano durante a guerra entre Israel e o Hezbollah. Mas dessa vez era diferente.

Dada a presença da Al Qaeda e do Estado Islâmico no Iêmen, os EUA decidiram que não poderiam arriscar uma grande evacuação. Eles não tinham nenhuma embaixada ou equipe em solo e, portanto, não havia nenhuma maneira efetiva de rastrear todos os potenciais passageiros em um avião ou navio. Consideraram, além disso, que a perspectiva de involuntariamente levar um terrorista aos EUA também era um grande risco. A decisão, então, foi assustadora: o Governo iria deixar os cidadãos americanos às suas próprias custas no Iêmen, em plena Guerra Civil, sem qualquer perspectiva de retorno.

Um aviso oficial do departamento estadual dizia: "Não há planos para uma evacuação coordenada pelo governo dos EUA aos cidadãos americanos neste momento. Encorajamos todos a se refugiarem em um local seguro até que possam partir. Os cidadãos dos EUA que desejam partir devem fazê-lo por meio de opções de transporte comercial quando estiverem disponíveis".

Toda essa situação levou à criação de um site, StuckInYemen.com, que documentava a situação daqueles que permaneceram no Iêmen. Em pouco tempo, mais de 700 relatos de americanos desesperados a sair do país foram registrados no site, na interminável esperança de que o governo oferecesse alguma saída.

Sob a pressão dos grupos de direitos civis árabes-americanos, um porta-voz do departamento do Estado, Jeff Rathke, explicou que os americanos que permaneceram no Iêmen fizeram sua própria escolha ao ignorar os avisos de que tratava-se de um país perigoso. "Por mais de 15 anos, o departamento do Estado vem indicando aos cidadãos norte-americanos que adiem viagens ao Iêmen, e nós sempre aconselhamos que os cidadãos que lá já estivessem deveriam deixar o país", disse ele em uma conferência de imprensa.

Alkhanshali passou a ponderar suas opções. Ele havia ouvido rumores sobre os navios que enviavam gado e pessoas entre Mokha e Djibouti. Na internet, descobriu que o porto de Mokha estava funcionando. Na realidade, estavam sendo travadas pelas forças do governo, mas os navios partiam normalmente.

Ele chamou Andrew.

"Você quer pegar um barco de Mokha?", indagou Andrew, incrédulo com a possibilidade.

"Chegamos a Djibouti e voamos para Addis", disse Alkhanshali, indicando que a distância entre essas duas cidades no Iêmen era plausível de se fazer por navio.

Sem melhores opções, Andrew concordou. Alkhanshali chamou a embaixada dos EUA em Djibouti, sem esperar nada, mas conseguiu um breve contato. E perguntou, hipoteticamente, se ele e outro americano conseguissem passar pelo Mar Vermelho e pudessem chegar a Djibouti de barco, seriam recebidos pela embaixada americana e, então, auxiliados a retornar ao seu país natal. A atendente disse que sim.

Assim eles fizeram. Alkhanshali cresceu em San Francisco, cercado de água por todos os lados, e passou anos no Iêmen, um país com uma costa de milhares de quilômetros, mas nunca havia estado em um barco. Ele sempre quis, mas as balsas e iates que ele vira ao longo de sua juventude pareciam parte de algum outro mundo inalcançável.

Sua primeira experiência com qualquer embarcação foi em um pequeno bote deixando o Iêmen no meio de uma Guerra Civil.

Ele entrou e deixaram a costa. E estavam carregando consigo os primeiros grãos de café a deixar o porto de Mokha em anos. Uma vitória para quem, alguns meses antes, havia rumado ao país motivado por uma singela estátua de um homem bebendo café - a estátua que o levou a uma aventura de nosso tempo, de guerras, profunda injustiça com refugiados e de preconceito xenófobo.