POLÍTICA

Calculadora moral: Eike é mocinho ou bandido?

Gustavo Kahil
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Gustavo Kahil
Calculadora moral: Eike é mocinho ou bandido?

A exclusiva do Jornal Nacional com Eike Batista na semana passada serve como uma proxy interessante sobre a reação dos brasileiros em relação à prisão do ex-bilionário. Era possível ver brasileiros passando no saguão do JFK e pedindo selfies com o personagem. Eram mais fãs do que críticos. Até atrizes vilãs em novelas sofrem mais ao sair nas ruas.

O que explica esse comportamento? Qual é o julgamento moral? É só o fato de não ser político? Talvez Marcelo Odebrecht não tenha a mesma facilidade para sair às ruas no futuro.

Moral, para muitos, é um valor absoluto, mas a verdade é que muitas vezes é relativizada. Existe um conceito de um “mal menor” ou o famoso “os fins justificam os meios”. É o que parece ter acontecido neste caso. Eike era, afinal, bem-intencionado. Uma das perguntas feitas a ele foi: Existe outra forma de fazer negócios no Brasil?

É como se pudéssemos aceitar alguns milhõezinhos aqui ou ali para atingir o nobre objetivo de transformar a infraestrutura mambembe brasileira. É só mais um grãozinho de areia no caminhão de corrupção do país, não é mesmo?

Comparando

Quem vai para o céu antes? Dilma Rousseff vista como “incapaz, mas honesta”, ou Eike? Ele, o herói azarado que jogou as regras do jogo. Ou ainda aquele que “rouba, mas faz”? Quem merece mais a nossa indignação? Precisamos de uma calculadora moral... vamos às contas:

1 - Dilma não roubou, mas a década perdida vai ter um custo no sofrimento de uma nação, a não falar do mundo, fazendo o FMI revisar as previsões de crescimento MUNDIAL para baixo com a crise do Brasil.

2 - Eike corrompeu (é pior que ser corrompido?), mas investiu. Mentiu, mas era a regra e o risco do mercado (qual CEO não mente em suas projeções? Segundo o pensador Nassim Taleb, todos, mas somente os sortudos sobrevivem). Será que existe uma compensação por ter mentido um pouco, mas catalisado bilhões de reais em investimentos? Isso lhe daria bilhões de pontos em nossa calculadora moral?

Depende do quão keyenesiano você é.

Se você está do lado dos que pensam que se o governo enterrar garrafas com dinheiro isso gera ocupação e renda, daí sim. Mas se você se preocupa mais com os multiplicadores, daí não. Os investimentos dele não foram muito melhores do que os estádios da copa em Cuiabá e Manaus. E essa brincadeira do Eike custou pelo menos umas 10 vezes mais. E nem teve festa.