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No meio de um bairro pobre da periferia, ele vive com um coração artifical

Hugo Vecchiato
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Hugo Vecchiato

As moradias precárias e as vielas estreitas de uma comunidade pobre de Santo André, no ABC paulista, guardam o que de mais avançado existe atualmente na cardiologia. É ali, na região de Vila Guiomar, que mora o pernambucano Alciones Severino Cabral, de 47 anos. Ele carrega um coração artificial no peito.

O primeiro infarto ocorreu em 2002. Ele trabalhava como porteiro em um condomínio, andava de bicicleta, mas eram muitos os maços de cigarro. Entre idas e vindas ao hospital, entre um procedimento e outro, Alciones perdeu metade do coração. Continuou a trabalhar, no entanto, até que, em 2013, durante uma viagem à terra natal, Pernambuco, voltou a passar mal. 

Exames mostraram que o coração estava cada vez mais inchado. A solução seria o transplante, mas a espera não seria fácil: os problemas cardíacos aumentavam e seria preciso uma solução mais rápida. Veio então um presente: os médicos que o atendiam no Hospital Santa Helena, na zona Leste de São Paulo, indicaram Alciones para um projeto do Hospital Sírio Libanês, referência na área. 

Após uma delicada cirurgia, o porteiro recebeu em fevereiro de 2015 um aparelho HeartMate 2, o mais moderno usado atualmente no mundo. O dispositivo tem uma turbina que gira a até 9 mil rotações por minuto e bombeia o sangue de forma contínua, ou seja, não bate. Por isso, o paciente que o utiliza não tem pulso. É isso mesmo. Ao auscultar, o médico identifica o fluxo de sangue – um “shhhhh” –, mas não o barulho do bombeamento que faz um coração normal.

O paciente que recebe um coração artificial tem algumas limitações e carrega dentro de uma bolsa a parte do aparelho que fica fora do corpo. O principal cuidado é com as baterias, mas elas duram muitas horas e Alciones tem várias delas. O problema maior é outro: “Eu tenho tido dificuldade para entrar em bancos e aí os gerentes têm que vir falar comigo. Depois que eu entro, aí é aquela coisa: você vê os guardas naquele burburinho...eles perguntam: é assim que você vive? Mas eu tô feliz demais”, conta. Alciones sempre conta com a ajuda de seus "enfermeiros particulares": os dois filhos e a esposa.

No meio de um bairro pobre da periferia, ele vive com um coração artifical

O diretor do Instituto do Coração e chefe do setor de cardiologia do Sírio, Roberto Kalil Filho, diz que a sobrevida para o paciente que usa o coração artificial é grande. “A grande maioria destes aparelhos, chamados de suportes mecânicos, servem como ponte para transplante. Mas os pacientes que têm os equipamentos mais modernos podem ficar até anos com eles”. Relatos de médicos indicam que pacientes sobreviveram até 10 anos com o coração artificial.

No meio de um bairro pobre da periferia, ele vive com um coração artifical

O custo de equipamentos como esse ainda é um desafio para a medicina, que busca criar saídas para popularizar a tecnologia. O Instituto Dante Pazanese, em São Paulo, iniciou um trabalho com um coração artificial desenvolvido no Brasil, mas, por enquanto, não há previsão de quando ele poderá começar a ser usado. 

Não são todos os cardiopatas que podem receber um implante de um suporte mecânico. É preciso que o paciente esteja em um estágio delicado em que ficar com o coração natural poderá matá-lo e não há formas de atenuar o problema. Também é necessária uma resposta positiva do corpo humano e aquele que receber o equipamento tem que tomar vários remédios para evitar rejeição.

No meio de um bairro pobre da periferia, ele vive com um coração artifical

Contudo, ele e seu coração artificial vão se separar um dia. “Me perguntaram: se pintar um coração você vai querer, Alciones? Eu falei: olha, tudo é muito bom, mas nada melhor do que você ter liberdade”. A liberdade, aliás, está próxima. O porteiro realiza exames constantes e aguarda o transplante. O próximo presente ansiosamente esperado.

* reportagem veiculada na Rádio Bandeirantes de São Paulo em novembro de 2015.