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A última curva de David Bowie (ou, um gênio nos acena adeus)

igornatusch
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igornatusch
A última curva de David Bowie (ou, um gênio nos acena adeus)

Despedidas nunca foram o forte do ser humano. E isso é especialmente (ou mais visivelmente) verdade quando estamos falando de artistas, pessoas comprometidas com uma obra que não raro alcança toda a extensão de uma vida. Nenhum artista desejará encerrar seu legado com um trabalho menor, mesmo que muitas vezes seja exatamente isso que acaba acontecendo. Não é uma vergonha nem motivo para jogar a obra de alguém no lixo, é claro - mas numerosas são as carreiras que encerram com um livro fraco, um álbum sem entusiasmo, um poema que soa bobo em comparação com a força eloquente do passado. Nada é mais complexo e de triunfo tão difícil de determinar quanto a luta constante do criador para superar suas melhores obras - algo que certamente perde tanta importância com o tempo e a maturidade, mas segue importante para nós, os que não temos legado artístico, os que só podemos comentar a genialidade dos gigantes cujos ombros nos permitem enxergar além.

David Bowie, músico cuja genialidade poucos ousarão questionar, fez de sua despedida o final arrebatador de uma obra inesquecível. Apenas hoje, no dia em que é anunciada sua morte, sabemos sem margem para dúvida que ele passou os últimos 18 meses em uma luta contra o câncer. Dois dias antes, na data de seu aniversário de 69 anos, havia lançado "Blackstar", o 25º álbum completo de uma extensa discografia. Para divulgá-lo, escolheu a música "Lazarus" - e como se o tema (óbvia referência ao homem ressuscitado por Jesus na Bíblia) e a letra não fossem claros o suficiente, ainda fez um videoclip inequívoco sobre o significado profundo da canção: uma despedida candente e apaixonada de quem, diante da morte, exalta a experiência de viver. Lázaro, no caso, não voltará como homem: será incorporado pelo universo, vida que retorna à fonte de onde todas as vidas surgiram e surgirão.

Agora, surgem alguns relatos que reforçam o caráter de adeus de "Blackstar" - entre eles, o do produtor Tony Visconti, que revela ter ciência da gravidade do caso de Bowie há cerca de um ano e que descreve o CD como um "último presente" para os fãs.

Ouço o álbum enquanto escrevo esse texto. É, de fato, um trabalho com uma forte carga de encerramento, de última palavra, de quem coloca ponto final em certas coisas. Mas é, ao mesmo tempo, um álbum muito vivo. Vibrante e intenso. Estranho, em vários momentos. Não é talvez o melhor jeito de começar a ouvir David Bowie. Mas é sem dúvida um álbum criado por alguém que não cansou de criar. Uma enfática declaração de princípios vinda de alguém que nunca gravou música apenas para vendê-la, nunca escreveu versos apenas para dizer o agradável ou o simples de compreender. Ele está se despedindo dos fãs, de todos que apreciaram sua obra - mas está, acima de tudo, despedindo-se de si mesmo. E não o faz com afagos no ouvinte ou com pedidos de aplauso: prefere perturbar, confundir, ir além do confortável. Não que ser genial seja necessariamente ser ousado e intrigante o tempo todo, mas assim sempre foi em se tratando de David Bowie, e assim foi ele mesmo (ou quem sabe até especialmente) diante do fim de sua jornada.

Difícil falar de uma morte como algo artístico, mas talvez seja a melhor forma de descrever a última curva de David Bowie. E quão genial precisa ser um artista que toma seus últimos meses de vida para criar um capítulo final que se revela ainda mais profundo na morte do que já parecia ser em vida? O último contexto de "Blackstar" surge com a morte de seu criador - e, embora seja talvez enfático demais dizer que isso foi plenamente planejado, trata-se de uma obra final vinda de alguém que via a morte próxima e tinha todas as condições e a ousadia criativa para buscar justamente esse efeito, para pensar uma obra que seria, quase imediatamente depois de lançada, póstuma. Não está em "Blackstar", é claro, o mais luminoso legado de David Bowie - algo que, de certo modo, ele próprio reconhece no título do CD. Mas é um trabalho que, mesmo diante da escuridão, brilha como uma estrela - uma morte que, no momento de sua concretização, ilumina tudo como pura vida. Um gênio que, mesmo entre nós, já olhava para nós à distância, acenando adeus. Nós, o que ainda vivemos, bem faremos em saudar adequadamente essa generosa e corajosa genialidade final.

Imagem: Divulgação