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O argumento moralista não resolve o problema das drogas. Nem problema algum

igornatusch
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igornatusch

Temas complexos são, muitas vezes, alvos de simplificações. É algo natural, já que todo mundo quer dar opinião sobre assuntos com os quais se preocupe - mas acaba sendo também um problema, já que reduz a discussão a respostas automáticas que acabam não respondendo coisa alguma. É muito comum, por exemplo, tratar a grave questão da violência associada ao tráfico de drogas com uma argumentação moralista: são as pessoas que financiam o tráfico, é o cigarro de maconha que você fuma com os amigos no fim da tarde que ajuda a espalhar sangue de inocentes por aí. Nem me animo a entrar no mérito da afirmação em si, que considero um bocado ilusória e demasiado simplista. Minha questão é outra: que diferença isso faz? O quanto essa conversa moralista nos ajuda a enxergar uma solução para o problema, seja esse ou qualquer outro que se possa imaginar?

O argumento moralista não resolve o problema das drogas. Nem problema algum

Muitas pessoas usam drogas, legalizadas ou não. Lamento se isso incomoda você, mas é a pura verdade e seu incômodo é incapaz de fazer essa realidade desaparecer. Seja lá por quais motivos as pessoas o façam, o fato é que sempre fizeram, como qualquer livro de história tratando da Lei Seca nos EUA ficará feliz de esclarecer. A proibição nunca foi útil para impedi-las, e ainda nos brindou com a violência inerente à manutenção de um mercado que, justamente por ser proibido, é altamente lucrativo. Temos um problema que nossa política proibicionista não apenas não resolveu, mas acaba ampliando mais e mais, com o custo de muitas e muitas vidas. E independente de concordarmos sobre o que fazer a seguir (eu defendo a descriminalização e a regulamentação, o que muita gente vê de forma diferente), de que adianta lamentar que as pessoas insistam em consumir entorpecentes, mesmo que a lei diga que não devem fazer isso?

A recusa moral, nesses e em outros casos semelhantes, é e deve ser uma decisão individual, jamais uma imposição coletiva. Uma solução individual (de alguém que usa drogas ou, para usar um exemplo dentro da lei, bebe demais) até pode passar pelo argumento moral, mas o problema coletivo exige uma solução coletiva, onde a avaliação moralista sobre a realidade tem pouco ou nenhum peso. Um julgamento do tipo reduz tudo a uma iniciativa individual idealizada, um comportamento que, se seguido à risca, eliminará o problema - o que ignora as inúmeras variantes que geram não só o próprio comportamento, como também (e especialmente) as forças que o alimentam e dele se beneficiam. Há uma indústria em torno da "guerra às drogas", há setores que lucram com a ilegalidade e eles se infiltram em todas as esferas institucionais com o poder do dinheiro sem fim - dinheiro que só é tão forte não porque muita gente compra, mas porque essa demanda só é atendida no submundo. Reclamar do usuário que não segue o comportamento desejado não faz a menor diferença nesse cenário.

O argumento moralista, na maioria das discussões, não nos leva a lugar algum. É preciso entender a existência humana, não idealizá-la. E é preciso, claro, entender os problemas a fundo - algo que vai muito além de simples repreensão ao comportamento dito ilegal ou inadequado. Usar drogas é colaborar com algo criminoso? Em certo sentido, talvez até seja. Mas cada vez mais gente é contrária a essa definição, e não porque desejem usar drogas sem problemas: é porque faz cada vez menos sentido insistir em uma proibição que muito mais atrapalha do que ajuda - e não só aos usuários, mas ao conjunto da sociedade. Não está no usuário a gênese do problema: está na maneira equivocada como abordamos a predileção da nossa sociedade por usar alteradores de consciência. Ao invés de exigir do mundo que se comporte adequadamente, talvez seja mais útil pensar em como fazer esse comportamento gerar o mínimo de problemas - e isso não passa, definitivamente, por lições de moral.

Foto: XGuiX / Flickr