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A família vestida de Aladdin sofreu linchamento virtual. Lidem com isso

igornatusch
há 2 anos4 visualizações

Em tempos duros como os que vivemos, onde a ação antecede a reflexão e todo mundo parece contaminado pela vontade de ser o justiceiro da vez, um caso como o da família que se fantasiou de personagens do desenho Aladdin é tristemente simbólico. Não acho correto dar grandes detalhes do acontecido, muito menos reproduzir uma vez mais a foto que gerou toda a celeuma, mas tentemos explicar o que houve para quem (afortunadamente) nada sabia do caso até então. Um casal (nada caucasiano, mas também não imediatamente relacionável com a etnia negra), com seu filho adotivo (negro), participou de uma festa carnavalesca vestindo roupas aludindo ao desenho da Disney. O menino usava trajes do personagem Abu, que é o melhor amigo de Aladdin e, como sabemos, um macaquinho. Foi suficiente para que uma foto da família viralizasse, com multidões que acreditavam estar denunciando o que consideraram racismo na imagem. O pai veio a público rebater a acusação, dizendo que queria retratar a amizade entre Aladdin e Abu e que o racismo estava nos olhos de quem via - insuficiente, é claro, para aplacar a sanha de justiça de quem promove linchamento pelas redes sociais.

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A família vestida de Aladdin sofreu linchamento virtual. Lidem com isso

Sim, usei a palavra e a repetirei: linchamento. O que todas as pessoas que divulgaram a foto (a maioria sem sequer tomar o cuidado de disfarçar digitalmente o rosto da criança) promoveram foi um linchamento virtual, onde a família foi condenada por racismo sem nenhum direito a defesa, sem qualquer chance ou tentativa de compreensão, de forma impiedosa e cruel. Assim agiram a partir de um arremedo de argumento, dizendo que era necessário proteger a criança de uma situação vexatória - e para salvá-la do horror a expuseram a um horror maior ainda, espalhando para todos os lados a sua imagem, potencializando a possível vergonha e colocando em risco a estrutura familiar que essa criança (vinda, lembremos, de um orfanato) começa a construir. Que benefício trouxeram ao menino vestido de Abu as multidões que ousam dizer que tentaram protegê-lo, mas só o atingiram ainda mais - e que acusam simploriamente de racismo também aqueles que ousam discordar do modo como tudo foi conduzido?

Dirão alguns que racismo é algo odioso e deve ser condenado sem trégua, sem rodeios ou ponderações. Não percebem, esses que se julgaram portadores de uma verdade indiscutível, que usam o exato argumento dos que defendem a anulação dos direitos humanos, a condenação pelo tribunal do senso comum, a morte inclemente do suposto bandido em flagrante delito. Deve o racista ser marcado a ferro e fogo, de forma que nunca mais possa andar à rua sem que seja cuspido e humilhado por seu pecado? Se racismo cometeu essa família, devemos assumir de imediato que o fizeram com a mais pútrida das intenções, ignorando que possam ter assim agido por ignorância ou de forma desastrada? Não existe diferença entre o assassino de negros e alguém que erra reproduzindo coisas que não conseguiu (ainda) enxergar como preconceituosas? Não devemos, por acaso, agir de acordo com os tons de cinza de um assunto tão grave e tão disseminado mesmo nos mais diminutos gestos de nossa sociedade? É isso que desejamos - pular todas as etapas de discussão e passar direto para a fogueira, tochas em punho, transformando o Facebook em nossa Salem coletiva? Não será esse desespero justiceiro uma forma de calar, com ânsia e severidade, o traço do criminoso que enxergamos em nós mesmos?

Quem compartilha imagem de um suposto criminoso nas redes é um irresponsável, que pode estar cometendo uma brutal injustiça e até ajudando um ato criminoso e trágico contra o denunciado. Aconteceu agora mesmo no RS, com multidões compartilhando a foto do suposto estuprador de uma criança de 5 anos - foto, obviamente, de alguém que nada tinha a ver com o caso. E a mesma lógica, agradável ou não, vale para quem faz "denúncias" via Twitter ou Facebook, expondo o comportamento aparentemente inadequado ou repulsivo dos outros - nunca o seu próprio, é claro. Tomados da nossa presunção de pureza, apontamos sem medo o dedo para a suposta imundície dos outros, como se uma foto resumisse todos os argumentos, como se o momento fosse a totalidade da existência, como se a nós coubesse o papel de guardião e carrasco de quem quer que seja.

A intenção era boa, a luta contra o racismo é nobre e urgente? Pois lembro que é possível cometer a infâmia desejando a bondade, que qualquer um pode jogar a desgraça sobre aqueles que deseja amar e proteger - basta agir de forma irrefletida, acompanhando a manada, sem enxergar o humano que existe em nosso momentâneo antagonista. Assim agiram os que lincharam (sim, lincharam) a família que vestiu seu filho com as roupas de Abu: movidos talvez por boas intenções, mas apenas pavimentando com elas o caminho do inferno de algumas pessoas que não conhecem, que jamais viram e que a quem não deram sequer a consideração de uma defesa. Que alguma lição saia desse episódio lamentável.  

Imagem: Divulgação / Disney

O mundo que visita a ruína dos mortos não é um mundo vencedor

igornatusch
há 2 anos1 visualizações

Resolvemos, eu e minha namorada, passar o carnaval em São Miguel das Missões, no noroeste do Rio Grande do Sul. Para quem não sabe (e ninguém, especialmente não-gaúchos, está obrigado a saber), estão localizadas na cidade as ruínas de São Miguel Arcanjo, uma das sete missões jesuíticas erguidas em proximidade com índios guarani e que foram alvo de sangrentas batalhas na segunda metade do Século XVIII. É um lugar belo, ainda que consideravelmente melancólico, em um ambiente propício ao pensamento reflexivo e aos devaneios filosóficos. Além disso, a cidade em torno é pequena e tranquila, e a pousada onde estamos tem uma excelente piscina. Para quem quer distância dos percalços da metrópole por uns dias, como é nosso caso, trata-se de boa e razoavelmente barata opção.

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O mundo que visita a ruína dos mortos não é um mundo vencedor

Na noite de domingo, depois de muitos e agradáveis passeios, fomos assistir o espetáculo de luz e som promovido nas ruínas. É uma forma de contar ao visitante a história por trás das missões, fugindo do professoral e dando a tudo um ar mais grandioso e artístico. Foi uma experiência divertida, emoldurada por um céu limpíssimo de infinitas estrelas, mas devo dizer que a profusão de flashes e celulares me causou espécie e um difuso desagrado. Mesmo em momentos de quase total escuridão, onde a quase impossibilidade de enxergar o que quer que fosse era importante para a dramaticidade do evento, saltavam as máquinas fotográficas a jogar fachos de luz sobre nós, prejudicando todo o efeito previsto. E de forma inútil, pois duvido que a sensibilidade limitada de um aparelho de mão consiga captar mais do que um borrão indistinto de luz, como o jovem inexperiente que acredita ser capaz de fotografar em seu celular a pujante imagem de uma bela lua cheia.

Não é por mau humor que faço os comentários acima. Compreendo bem que vivemos tempos onde o registro é parte inseparável das experiências, onde mostrar que esteve é tão importante quanto estar, onde a memória e as sensações estão grudadas à imagem feita no momento da vivência. É parte importante do modo como as pessoas de hoje vivem as coisas, não é feito por maldade ou frivolidade consciente e não me sinto em posição de fazer condenações enfáticas a respeito. Apenas sinto que, no caso, está sendo reduzida a pixels mais do que a vivência do instante, mas a própria história. E não apenas pelas famílias que fotografam luzes distantes durante um feriado de passeio, mas pelo próprio formato de espetáculo, pela estrutura que nos permite visitar despreocupadamente lugares onde tantos construíram suas existências, lar onde tantos morreram pela recusa em aceitar a ordem de partir.

Como se deve pisar no chão da casa que visitamos, mesmo que agora seja apenas fragmentos e ruínas? Com que sentimento devemos andar pelo solo onde corpos morreram e apodreceram, em meio a prédios que foram engolidos pelas ervas e folhagens durante séculos de abandono antes de virarem lugar não só de peregrinação, mas de lazer? Que capturamos nós da história e da humanidade ao fotografar edificações esvaziadas do original sentido, iluminadas por spots em um show de estímulos sonoros e visuais? Que capturo eu da essência dramática desse solo e dessa história, andando em meio às pedras em um feriado de carnaval, podendo em seguida voltar para um quarto refrigerado ou um agradável mergulho na piscina?

Pudessem nos ver hoje em dia, talvez os homens do passado se ofendessem com a falta de consideração de nossas máquinas fotográficas e selfies ao celular. Ou talvez apenas rissem, como riem os adultos e sábios diante das brincadeiras de uma criança inconsequente. A maioria de nós não vivenciou grandes lutas, não ergueu comunidades com madeira e barro, não sangrou em resistência contra a traição de impérios e exércitos mercenários. Esvaziados de vivência, talvez só possamos mesmo buscá-la na imagem pobre do celular pago em prestações, talvez só possamos conhecer a história por meio da nossa intromissão irrefletida, já que renunciamos desde sempre a um papel ativo em sua construção. Ou talvez nossas lutas sejam bem outras, nossos desafios bem diferentes, diante dos quais um corajoso guerreiro guarani tremeria como nós tremeríamos diante da lança do bandeirante ou do soldado espanhol.

Seja como for, há a ponte, hoje rompida. E algo me diz que não é nas fotos de baixa ou alta definição - ou mesmo nas reflexões descuidadas de um empilhador de palavras como eu - que será possível reconstruí-la. O mundo que visita a ruína dos mortos é o mundo que surgiu depois da vitória de seus algozes, mas não é exatamente um mundo vencedor. Talvez, se deixar um pouco de lado o ar-condicionado e os smartphones, possa aprender com os mortos algo que ajude a enfrentar seus novos e engenhosos grilhões. 

Foto: Igor Natusch

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igornatusch
Jornalista. Escritor. Testemunha ocular do fim do mundo.