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A morte de Lemmy e o fim do ideário rocker

A morte de Lemmy e o fim do ideário rocker
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A morte, como é sabido, nunca foi uma passagem muito digna na história músicos de rock e heavy metal. E aí está, para começo de conversa, um dos elementos extraordinários que envolvem a morte de Lemmy Kilmister, cidadão que marcou o mundo com o Motörhead e com sua inesquecível persona pública: fisicamente decadente, doente, mas lutando até o fim das forças ao invés de apagar na flor da idade, afogado no vômito ou em uma overdose de heroína. E seu fim é o que foi a sua vida: uma potente metáfora sobre o auge do estilo de vida rocker, em tudo que teve de caricato e questionável, mas também em sua profundo fascínio e beleza humana.

Lemmy foi, quase desde sempre, uma representação física do rock and roll. Ao mesmo tempo ameaçador e carismático, cheio de um charme outsider que vai além da simples beleza física, movendo-se sempre para a frente em nome de convicções intransigentes, mesmo que muitas vezes não fossem além de uma ou duas frases feitas. Bebia vodka como se fosse água, vivia de uma dieta de hambúrgueres e batata chips, fazia sexo com qualquer mulher que estivesse disposta, usava os intervalos de turnês intermináveis para gravar disco atrás de disco, sem pensar muito a respeito, sem pausas para descansar. Sempre pisando firme no palco, empunhando o baixo como uma metralhadora, tocando sempre tão alto que o público ia para casa com os ouvidos zunindo. Era, a seu modo, uma montanha de clichês baratos de revistas de rock - mas era tudo isso com uma franqueza rude que dava a seu personagem uma capacidade de convencimento talvez ainda maior que a realidade.

Embora sua morte não seja necessariamente a morte desse modelo (mesmo porque, de certo modo, o modelo já morreu há tempos), seu desaparecimento deixa o rock sem uma de suas figuras mais emblemáticas. E o choque de alguns músicos igualmente bem sucedidos (tipo Rob Halford e Ozzy Osbourne, que postaram mensagens muito sentidas em redes sociais logo após a notícia) mostra isso. Mais do que a enorme tristeza diante da morte de un ídolo, a comoção dessas figuras do rock revela nas entrelinhas algo que todo mundo sabe, mas eles entendem especialmente bem como personagens da história que são: o rock pesado, enquanto fenômeno e tal como conhecemos, já era.

Uma das grandes contradições do rock está em, sendo rebelde, adotar uma postura cada vez mais conservadora. É comum ver o desajustado e o revolucionário como irmãos, mas isso não é muito a regra no que tange ao heavy metal e ao rock em geral. Mesmo querendo ser diferente, o rocker não costuma querer que as coisas mudem: quer seguir cometendo excessos de forma irresponsável o resto da vida, como se amar a música fosse salvo-conduto para um eterno descompromisso adolescente. O problema é que o mundo em torno do metal mudou e muda cada vez mais. Viver depois da meia noite e curtir a vida rocker até amanhecer, ganhando milhões de dólares no processo, deixou de ser uma opção viável. Mais: perdeu boa parte de seu charme. Ser músico de metal deixou de ser a chance de ter uma vida de excessos e virou quase profissão de fé, raramente acompanhada de saúde financeira. Falar de banalidades como se fossem algum tipo de filosofia de vida, não raro sendo misógino ou preconceituoso no processo, virou quase constrangedor. O lifestyle já era.

Pessoalmente falando, não acho isso ruim. A glamourização da vida de drogas, bebida, hedonismo e letras gritando "baby I don't care" - tudo isso sempre foi uma forma nem tão sofisticada de ficção sobre a vida, que ganhou ares crescentes de bravata na medida em que virou realidade. Enquanto esse modelo decadente dos 1970/1980 não for colocado definitivamente em perspectiva, o novo vai demorar a aparecer - algo que, em outros termos, gente como Ian Anderson vem dizendo há quarenta anos ou mais. Lemmy, em sua sinceridade intransigente, era um dos ícones dessa resistência conservadora, dessa recusa em deixar o passado ir embora, dessa determinação em manter o rock pesado como trilha sonora da rebeldia que sempre existiu e sempre existirá na humanidade. Agora que ele se foi, e como os outros baluartes dessa visão envelhecem mais e mais, essa teimosia está condenada.

Não saberia dizer até que ponto eu admirava Lemmy Kilmister. Principalmente porque não me parece ser o tipo de pessoa que se admire por suas qualidades concretas, digamos. Sempre tive dele a impressão de ser alguém orgulhoso dos seus defeitos, e tenho dúvidas de que resistisse sem arranhões a uma análise mais profunda. Algum de nós resistiria? Seja como for, o que havia de impressionante (e significativo) nele esteve sempre em sua postura, sua maneira de encarar as coisas, uma espécie de arrogância quase ingênua diante das incertezas, das mudanças, de tudo. É um legado marcante, que merece ser celebrado. Porque, em um mundo que padroniza tudo e todos, a autenticidade, mesmo que pouco mais que uma bravata em muitos momentos, é uma postura a ser apreciada. Apontar o fim de uma era não implica em desprezá-la.

Lemmy foi arrogante como um adolescente (ou velho) teimoso até o final. Se recusando a sair da estrada, recusando qualquer recomendação para pegar mais leve, trocando vodka por vinho e achando que fazia muita diferença. Gravando um derradeiro álbum (o bom "Bad Magic") em meio a crises de saúde, abandonando o palco por falta de ar em uma noite e subindo em outro palco no dia seguinte. Cabeça dura, sim, mas autêntico. Nunca fingiu ser o que não era - ou, dito de outro modo, nunca recuou de seu fingimento inicial. Admirável? Não sei bem. Mas muito humano. E de humanidade eu gosto muito, ainda mais quando resulta em tanta boa música. 

Foto: Dena Flows

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igornatusch
Jornalista. Escritor. Testemunha ocular do fim do mundo.