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A Primeira Liga está começando. Vida longa à Primeira Liga!

igornatusch
há 2 anos3 visualizações

Começa nesta quarta-feira (27) a Primeira Liga. Os jogos de hoje (Inter x Coritiba, Fluminense x Atlético-PR, Atlético-MG x Flamengo e Criciúma x Cruzeiro) marcam os primeiros passos, ainda um tanto inseguros, de uma competição que é a mais bem-vinda novidade no calendário do futebol brasileiro em mais de uma década. A CBF tenta impedir a competição, ameaça de forma velada com sanções, federações estaduais se agitam e em casos extremos (como no RJ) ameaçam até com a desfiliação de quem jogar o torneio. Reações que, além de potencialmente inócuas (a Lei Pelé prevê a criação de ligas independentes, sem nenhuma necessidade de bênção de federações e demais entidades reguladoras), acabam tendo efeito contrário: ao invés de colocar a Primeira Liga sob suspeição, reforça os motivos pelos quais ela precisa acontecer.

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A Primeira Liga está começando. Vida longa à Primeira Liga!

Que o calendário de nosso futebol é uma bagunça, qualquer um sabe. Embora tenhamos visto alguns progressos recentes (como estender a Copa do Brasil durante o ano todo, o que suavizou a concentração de jogos e abriu espaço para ampliar também a duração do Brasileirão), ainda convivemos com um cenário onde há jogos demais, com competições que não dialogam com certames continentais, onde datas colidem com compromissos FIFA o tempo todo. Além disso, os grandes clubes estão amarrados a um modelo atrasado de campeonatos estaduais, que consome datas demais e só serve realmente aos interesses vampirescos das federações. Ao lançar uma nota em cima da hora tentando impedir a Primeira Liga, a CBF dá a entender que é a iniciativa dos clubes que periga inchar o calendário, como se ele já não estivesse inchado de forma notória há décadas, por iniciativa da própria CBF e de suas federações estaduais. Ou seja, usa de forma canhestra seu erro histórico como argumento para impedir um acerto que coloca em risco o seu poder. Além de cometer, é claro, uma clara ilegalidade.

Ainda mais tragicômica é a postura das federações estaduais. Vivem desde tempos remotos às custas dos principais clubes de seus estados, forçando os clubes menores a passar o ano inteiro esperando por um ou dois jogos que equilibrem suas finanças, disputando competições deficitárias ou simplesmente fechando as portas no restante do tempo. Promovem competições desinteressantes, que devoram quase duas dezenas de datas que os grandes adorariam empregar de outro modo - e agora alegam, com a maior cara lavada deste mundo, que não há espaço no calendário para mais jogos? A quem poderão convencer com semelhante arremedo de argumento?

Não é de hoje que o futebol brasileiro vem sendo impedido de atingir seu potencial por forças que, ao invés de gerir, buscam lucrar com o esporte. Defendo há tempos que o potencial de talentos e a aceitação da torcida poderiam fazer do Campeonato Brasileiro um espetáculo à parte, algo com o potencial comercial de uma NFL ou NBA nos Estados Unidos. O que, por óbvio, será impossível enquanto não forem criadas condições para essa exploração, enquanto não abrirmos mão de fórmulas antiquadas que só atrasam todo o processo. Que sentido faz, em pleno 2016, disputar competições estaduais como se ainda estivéssemos nos anos 1940, como se o grande mérito do Cruzeiro se resumisse a vencer o Atlético Mineiro, como se viajar para a capital mais próxima fosse um desafio que exigisse meses de preparação? É muito mais lógico fazer como se faz em vários países: instituir certames estaduais ou provinciais como módulos em uma quarta ou quinta divisão nacional. É mais interessante para os clubes maiores (que podem, se quiserem mesmo jogar contra os vizinhos estaduais, inscrever um time B) e para os menores também, que jogarão o ano todo com objetivos claros em vista. Só não interessa a quem precisa do atual modelo para lucrar - algo que, ao propor a Primeira Liga, os clubes maiores deixam claro que não se refere a eles.

A competição que nasce nesse meio de semana está ainda distante do ideal. É um torneio curto, ainda desprestigiado pelos próprios participantes (vários times devem usar reservas ou juniores nos jogos), que foi sendo definido meio em cima da hora e acaba sendo tratado como pouco mais que uma sequência de amistosos. Além disso tudo, pouco se viu em termos de propostas para o próximo passo, para o que será feito depois que a Primeira Liga se encerrar. Mas é um primeiro passo importantíssimo. Justamente porque expõe a falência do atual modelo futebolístico brasileiro, ao mesmo tempo que desnuda o rosto daqueles que preferem que tudo fique indefinidamente como está. Ao lançar uma nota vetando a competição com menos de 72h para o primeiro jogo, a CBF faz uma piada consigo mesma, tentando abafar uma mudança sobre a qual tem muito menos controle do que gostaria. E ao ameaçar com desfiliação, a federação do RJ porta-se como o valentão do colégio que fica assustado quando alguém reage a seus abusos. Tentando enfraquecer a Primeira Liga, só fazem mais forte a proximidade entre os clubes que a propõem, só deixam mais urgente a necessidade de disputá-la e aprimorá-la.

Assistirei todos os jogos da Primeira Liga que puder. Irei à Arena, onde meu querido Grêmio disputará seus jogos, em todas as oportunidades. Que seja um enorme sucesso de público e mostre com ainda mais clareza o que todo mundo já sabe: que o futebol brasileiro pode e precisa ser mais, bem mais do que tem sido. 

Imagem: Divulgação / Primeira Liga

A "atitude suspeita" não pode virar desculpa para abuso policial

A "atitude suspeita" não pode virar desculpa para abuso policial
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Logo depois do surpreendente (e revoltante) caso ocorrido em frente ao prédio da Folha de São Paulo, quando jornalistas do veículo foram obrigados a ajoelhar-se no meio da rua por terem causado "suspeitas" em alguns policiais, uma situação acontecida no Fórum Social Mundial em Porto Alegre na última quinta-feira (21/01) reforça o argumento da "atitude suspeita" como nova ferramenta das polícias militares para fazerem, basicamente, o que der na telha. O ativista pernambucano Paulo Sérgio Medeiros Barbosa, da Rede Mocambos, cruzava o parque da Redenção em direção a uma atividade do FSM, na qual seria um dos palestrantes. Acabou abordado e quase preso pela Brigada Militar, que chegou a pedir reforço de três viaturas quando Barbosa recusou-se a permitir que os policiais o revistassem. A alegação da BM: ao cruzar sozinho o parque, Barbosa, que é negro, estaria em "atitude suspeita".

O caso é tristemente emblemático, em mais de um sentido. Evidente que a atitude suspeita de Barbosa dificilmente seria suspeita se ele fosse branco: trata-se de um caráter "suspeito" bem conhecido, o mesmo que faz com que jovens negros liderem com folga as estatísticas de assassinatos no Brasil. E é duplamente preocupante e inaceitável a ação da Brigada Militar, não só por seu caráter truculento e gratuito contra alguém que apenas calhava de ser negro e andar sozinho por um parque, mas pela esdrúxula justificativa para a abordagem. O que é uma "atitude suspeita"? Quais critérios definem o comportamento digno de intervenção policial, e o que protege as pessoas (de todos os tipos, todas as cores, todas as culturas e vestimentas) de serem consideradas, aleatoriamente, indivíduos sob suspeição?

Evidente que não se espera que as polícias fiquem impedidas de abordar pessoas em atitudes de fato suspeitas - abrindo veículos sem uso de chaves, tentando invadir propriedades, abordando outras pessoas de forma estranha no meio da rua. É o que se espera de uma autoridade policial, no fim das contas: que seja capaz de agir não somente depois, mas sempre que possível antes do crime ocorrer. Mas é igualmente esperado que, como agentes do estado, esses policiais sempre prestem contas sobre o que fazem quando em serviço. Não é democrático e mais, não é razoável que policiais fiquem abordando pessoas em espaços públicos ao bel prazer, de forma não raro agressiva e intimidadora. Menos ainda com evidências tão concretas quanto a cor da pele do "suspeito" e o fato dele estar sozinho em uma área pública. A reação dos populares, que conseguiram aos gritos impedir a BM de prender Barbosa com base em coisa alguma, demonstra claramente a desnecessidade da ação. Quanto tempo os policiais observaram antes de agir? Que indícios alegam ter visto? Que tipo de esclarecimento prestarão, a seus superiores e à sociedade, sobre essa abordagem?

Em entrevista ao portal Sul21, o tenente-coronel Marcus Vinícius Oliveira, do 9º Batalhão da Polícia Militar de Porto Alegre, disse não acreditar em motivação racista, já que os policiais que fizeram a abordagem são negros. Com o devido respeito, digo que é a típica resposta que não responde nada. Se não foi por ser negro que Barbosa foi parado, foi pelo quê? O que fazia ele? Pode parecer pouco, mas é muito importante que haja clareza nesse ponto. O ativista da Rede Mocambos, que em seguida falaria sobre racismo em uma mesa do FSM, acabou tendo que vivenciar uma situação lamentável na qual a cor de sua pele parece ter sido preponderante. E uma vez que a PM não parece preocupada em explicar adequadamente o que viu de ameaçador nele, estamos todos autorizados a pensar que sim, foi por racismo que Barbosa foi abordado e por pouco se escapou de ir parar na delegacia. Só quem nunca sentiu na pele a falta de critérios das polícias militares (e não faz tanta questão assim de preservar a própria liberdade) pode achar que nada disso faz diferença.

Foto: Guilherme Santos / Sul21

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igornatusch
Jornalista. Escritor. Testemunha ocular do fim do mundo.