O Esforço Diário
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
O Esforço Diário
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
O Esforço Diário
ic-spinner
У каждого есть своя история
Находите лучшие истории и интересных людей. Вдохновляйтесь ими и начинайте писать самостоятельно либо вместе с друзьями.

O argumento moralista não resolve o problema das drogas. Nem problema algum

igornatusch
2 года назад3 просмотров

Temas complexos são, muitas vezes, alvos de simplificações. É algo natural, já que todo mundo quer dar opinião sobre assuntos com os quais se preocupe - mas acaba sendo também um problema, já que reduz a discussão a respostas automáticas que acabam não respondendo coisa alguma. É muito comum, por exemplo, tratar a grave questão da violência associada ao tráfico de drogas com uma argumentação moralista: são as pessoas que financiam o tráfico, é o cigarro de maconha que você fuma com os amigos no fim da tarde que ajuda a espalhar sangue de inocentes por aí. Nem me animo a entrar no mérito da afirmação em si, que considero um bocado ilusória e demasiado simplista. Minha questão é outra: que diferença isso faz? O quanto essa conversa moralista nos ajuda a enxergar uma solução para o problema, seja esse ou qualquer outro que se possa imaginar?

Рассказывайте о том, что вы любите, вместе с друзьями
Стать соавтором ▸
O argumento moralista não resolve o problema das drogas. Nem problema algum

Muitas pessoas usam drogas, legalizadas ou não. Lamento se isso incomoda você, mas é a pura verdade e seu incômodo é incapaz de fazer essa realidade desaparecer. Seja lá por quais motivos as pessoas o façam, o fato é que sempre fizeram, como qualquer livro de história tratando da Lei Seca nos EUA ficará feliz de esclarecer. A proibição nunca foi útil para impedi-las, e ainda nos brindou com a violência inerente à manutenção de um mercado que, justamente por ser proibido, é altamente lucrativo. Temos um problema que nossa política proibicionista não apenas não resolveu, mas acaba ampliando mais e mais, com o custo de muitas e muitas vidas. E independente de concordarmos sobre o que fazer a seguir (eu defendo a descriminalização e a regulamentação, o que muita gente vê de forma diferente), de que adianta lamentar que as pessoas insistam em consumir entorpecentes, mesmo que a lei diga que não devem fazer isso?

A recusa moral, nesses e em outros casos semelhantes, é e deve ser uma decisão individual, jamais uma imposição coletiva. Uma solução individual (de alguém que usa drogas ou, para usar um exemplo dentro da lei, bebe demais) até pode passar pelo argumento moral, mas o problema coletivo exige uma solução coletiva, onde a avaliação moralista sobre a realidade tem pouco ou nenhum peso. Um julgamento do tipo reduz tudo a uma iniciativa individual idealizada, um comportamento que, se seguido à risca, eliminará o problema - o que ignora as inúmeras variantes que geram não só o próprio comportamento, como também (e especialmente) as forças que o alimentam e dele se beneficiam. Há uma indústria em torno da "guerra às drogas", há setores que lucram com a ilegalidade e eles se infiltram em todas as esferas institucionais com o poder do dinheiro sem fim - dinheiro que só é tão forte não porque muita gente compra, mas porque essa demanda só é atendida no submundo. Reclamar do usuário que não segue o comportamento desejado não faz a menor diferença nesse cenário.

O argumento moralista, na maioria das discussões, não nos leva a lugar algum. É preciso entender a existência humana, não idealizá-la. E é preciso, claro, entender os problemas a fundo - algo que vai muito além de simples repreensão ao comportamento dito ilegal ou inadequado. Usar drogas é colaborar com algo criminoso? Em certo sentido, talvez até seja. Mas cada vez mais gente é contrária a essa definição, e não porque desejem usar drogas sem problemas: é porque faz cada vez menos sentido insistir em uma proibição que muito mais atrapalha do que ajuda - e não só aos usuários, mas ao conjunto da sociedade. Não está no usuário a gênese do problema: está na maneira equivocada como abordamos a predileção da nossa sociedade por usar alteradores de consciência. Ao invés de exigir do mundo que se comporte adequadamente, talvez seja mais útil pensar em como fazer esse comportamento gerar o mínimo de problemas - e isso não passa, definitivamente, por lições de moral.

Foto: XGuiX / Flickr

Um elogio ao textão: antes falar demais do que ficar na piadinha

igornatusch
2 года назад11 просмотров

Poucas coisas me deixam mais desanimado na atual existência digital brasileira do que o descaso generalizado pelo "textão". Óbvio que ninguém é obrigado a ler o que não deseja, mas é especialmente ruim a ideia geral de que texto longo é um erro, um comportamento equivocado que depõe contra aquele que o pratica. Chegamos a um ponto em que o autor do comentário mais volumoso muitas vezes se desculpa diante dos eventuais leitores - "já aviso que é textão" - como se fugir dos padrões não-escritos da comunicação via internet fosse um desrespeito ou falha de caráter. E essa tendência fala mal de todos nós, que opinamos e consumimos opiniões: estamos sem paciência para ouvir o outro, as mentes tão ocupadas de nós mesmos que quase não sobra espaço para mais nada.

Рассказывайте о том, что вы любите, вместе с друзьями
Стать соавтором ▸
Um elogio ao textão: antes falar demais do que ficar na piadinha

Vamos ser justos: a origem dessa repulsa ao texto longo na internet é bastante complexa e tem a ver com a própria natureza da rede, onde a atenção costuma ser difusa e há uma quantidade interminável de conteúdos para escolher. Além disso, muitos dos alvos da crítica são pessoas que usam o textão para trivialidades ou para menosprezar a inteligência alheia, o que por óbvio pode ser bem desagradável. Em resumo, reclamar do textão não é mera chatice. Mas a reprovação prévia a quem escreve mais do que duas ou três linhas sobre algum tema prejudica o confronto de ideias e a busca de consensos possíveis, tão importantes para tornar ligeiramente mais suportável o mundo que construímos para nós.

Muitos temas, como se sabe, são complexos. Nem tudo cabe em um meme simplificador ou em uma frase de efeito, nem tudo se explica citando um ou dois dados aleatórios sem contexto ou contestação. Muitas explicações - sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre nós mesmos - precisam de tempo e quem escreve sabe que as palavras escritas são, muitas vezes, o melhor modo de organizar o próprio pensamento. Negar ao textão sua eventual legitimidade, no caso, é reforçar uma imposição coletiva pelo argumento raso, é fazer o elogio ao não posicionamento - ou ainda pior, exigir que a posição se resuma a um sim ou não, negando os infinitos tons de cinza no meio do caminho. E se o textão é uma bobagem fútil ou uma mesquinharia, antes o textão sobre besteiras do que o resumo simplório em um meme muitas vezes mentiroso, discussão política e social transformada em troca de ironias dignas de quinta série.

Descartar o textão pelo simples fato de ser textão, como se o texto longo fosse um erro de origem, é inverter a ordem da formação de opiniões: conhecer primeiro, interpretar depois. No caso, interpreta-se que o argumento não vale a pena a partir das primeiras linhas (ou nem isso), negando ao argumento a oportunidade de se desenvolver. E tratando isso como um erro de quem argumenta, não uma circunstância (de tempo disponível ou de má vontade) de quem não quis conhecer o que estava sendo argumentado.

Que todos escrevam muitos, muitos textões. Sobre temas importantes, percepções que fogem ao senso comum, e sobre bobagens e tolices também. Que tenha textão sobre o direito feminino ao aborto e que tenha textão sobre o vizinho que não gosta de cachorro ou deixa o lixo no lugar errado. Que a gente incentive a variedade de depoimentos, ao invés de ficar reclamando porque são muito longos ou porque não temos interesse em alguns deles. E que quem não quer ler esteja permanentemente livre para isso, mas sem que seja preciso sempre ironizar ou ridicularizar quem se deu ao trabalho de escrever. Em um tempo onde o panfleto e a frase feita adoeceram nossa sociedade de vez, parte do antídoto está em dedicar tempo às ideias, suas e dos outros. Quem descarta o argumento longo com o rótulo pobre do textão não está fazendo nem uma coisa nem outra. O risco é afogar a mente em uma poça d'água, pela simples preguiça de levantar a cabeça e respirar.

Imagem: Reprodução / Paramount Pictures

Вы прочитали историю
Story cover
написанную
Writer avatar
igornatusch
Jornalista. Escritor. Testemunha ocular do fim do mundo.